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sábado, 19 de setembro de 2026

Precisamos (ainda) conversar sobre o complexo de vira-latas

 


Para quem ainda não sabe, sou vascaíno. Embora já um tanto anestesiado para eventuais fracassos e sofrências, mas... meu coração é irremediavelmente vascaíno. No entanto, quarta-feira passada, eu era o mais corinthiano de todos os torcedores.  

Enfrentando o Estudiantes de La Plata, o Corinthians lutava para se classificar para as semifinais da Libertadores. Um a um, o primeiro jogo, lá na Argentina. Na casa do Corinthians, o empate levaria para os pênaltis. Mas, aos 41 do segundo tempo, num belo voleio, o volante Alexis Castro marca o gol do Estudiantes. 

Então, no minuto final dos acréscimos, acontece o lance que enche de esperança os mais de 40 mil corinthianos presentes em Itaquera e milhões de outros torcedores Brasil e mundo a fora: um pênalti para o Corinthians. O holandês Memphis Depay segurou a bola e não a liberou para mais ninguém. A torcida segura o grito. Memphis vai para a bola e... isola! A pelota vai parar nas arquibancadas atrás do gol... Decepção e tristeza. 

Decepção, sentimento que também me atinge, pois estava torcendo para, pela primeira vez, uma semifinal da Libertadores só com times brasileiros. Esse triste acontecimento, junto ao fato de estar, nesse ínterim, abordando junto aos meus alunos a importância do teatro de Nelson Rodrigues, me fez repensar sobre esse estranho complexo de vira-latas” que atravessa a psique de muitos brasileiros. 

O termo “complexo de vira-latas” foi criado pelo escritor Nelson Rodrigues em 1958. Estávamos à véspera da Copa de 58 e Nelson Rodrigues ressaltava o pessimismo do brasileiro que sequer acreditava que a seleção se classificaria. Segundo Nelson, “complexo de vira-latas” é a situação de “inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. Isto em todos os setores e, sobretudo, no futebol”. Trata-se, portanto, de “um problema de fé em si mesmo. O brasileiro precisa se convencer de que não é um vira-latas”. Hoje mais do que nunca. 

Pois bem. Temos o melhor futebol do mundo. Isso é evidente no invejável fato de que a seleção brasileira de futebol é a única a ser pentacampeã mundial. Evidente também no grande número de jogadores brasileiros espalhando seus talentos pelos gramados do mundo. Essas duas evidências bastariam como antídoto para o malfadado complexo. Sem falar que muitos desses craques que chegam à seleção ou vão encantar outras torcidas planeta-a-fora são revelados no maior e mais difícil torneio de futebol do mundo, o nosso campeonato brasileiro, que traz times desiguais, em termos econômicos e organizativos, jogando em um país de dimensões continentais – e mesmo assim teima em revelar mais e mais craques a cada temporada. 

Logo, não temos motivos para nos sentirmos inferiores, mesmo não conquistando uma copa desde 2002. Mas, não custa lembrar que já poderíamos até ser hexacampeões: em 1978, a seleção brasileira foi eliminada da copa sem ter perdido nenhum jogo. O técnico do Brasil à época, Cláudio Coutinho, cunhou uma frase emblemática: “Fomos os campeões morais dessa Copa”. A frase foi dita depois das descaradas armações da Fifa que favoreceram a Argentina naquela copa, levando-a a ganhar seu primeiro título mundial.  

(Pequeno parêntese de memórias recentes: a bajulação da Fifa em prol da Argentina e dos Estados Unidos na copa desse ano...) 

Mesmo com o Corinthians eliminado, temos três brasileiros nas semifinais da Libertadores: Flamengo, Fluminense e Palmeiras. E apenas um argentino, o Estudiantes. Na Sulamericana, também predomina o Brasil: o Vasco vai enfrentar o Boca Juniors, da Argentina e o Atlético mineiro pega o Cienciano, do Uruguai. Ou seja, nas semifinais de nossos torneios regionais, temos cinco times brasileiros, apenas dois argentinos e um uruguaio. 

Mas, infelizmente, o complexo de vira-latas manifesta-se para além do futebol. Há os que criticam o cinema brasileiro, nossa música ou nossa literatura. Por ora não citarei algumas de nossa obras-primas cinematográficas, mas prefiro ressaltar a falta de investimentos que tanto marcou a história da sétima arte no Brasil. Falta de investimentos no nacional que – olha só – é um dos lados do complexo de vira-latas, quando associado ao poder: sim, projetos políticos e governantes que escolhem não desenvolver as artes nacionais, a fim de que continuemos, abestalhados, a sorrir e aplaudir o cinema norte-americano.  

Sobre a riqueza rítmica, sonora e poética da música brasileira – direi apenas isso. 

Quanto à literatura, o brasileiro com complexo de vira-latas costuma lembrar que nunca ganhamos um prêmio Nobel. Ainda bem, digo eu, pois o quanto podemos confiar na Academia Sueca, premiadora do Nobel? Em 2016, o Nobel de literatura foi para o cantor e compositor Bob Dylan, o qual silenciou sobre e só foi receber o prêmio meses depois. Tão bom na canção quanto Bob Dylan é o nosso Chico Buarque. Detalhe: Chico é escritor; um grande escritor de romances, peças teatrais e contos. A verdade é que não podemos confiar na Academia Sueca, que já concedeu, por exemplo, prêmios Nobel da paz a Henry Kissinger, Secretário de Segurança dos Estados Unidos, que colaborou com um dos golpes e um dos governos mais cruéis do mundo: a ditadura de Pinochet, no Chile; ou Barack Obama, ex-presidente norte-americano, que ganhou o Nobel da paz enquanto comandava campanhas de guerra no Iraque e no Afeganistão. No ano passado, o Nobel da paz saiu para a venezuelana Maria Corina Machado, a qualpresenteou Donald Trump com o prêmio (sim, existe complexo de vira-latas em outros lugares também). Anteontem, a ONU apresentou um relatório acusando o governo Trump de crimes de guerra, pelo assassinato de 120 meninas da escola Shajareh Tayyehbe, em Minab, no Irã... 

Não termos ganhado o Nobel de literatura não nos causa inferioridade. E, aqui, eu poderia fazer uma lista enorme de escritoras e escritores brasileiros que fariam jus ao prêmio, mas me resumo a lembrar a prosa meticulosa de Graciliano Ramos e as questões universais que seus romances e contos levanta, bem como poderia destacar outros autores da geração de 30. Ou falar de um dos nossos maiores gênios, experimentador-inventor de palavras e enredos que fundem gente e espaços, revelador do sertão interior de cada um, o nosso Guimarães Rosa. E enquanto alguns complexados estão aí alienados de nossa riqueza literária, escritores como Machado de Assis e Clarice Lispector são, nesse momento, avidamente lidos pelo mundo-a-fora. 

Como Nelson Rodrigues, devemos, antes de tudo, acreditar no brasileiro. Começando pelo futebol, pois como bem disse o criador de Vestido de noiva, “qualquer jogador brasileiro, quando se desamarra de suas inibições e se põe em estado de graça, é algo de único em matéria de fantasia, de improvisação, de invenção”.  

Mas não basta acreditar no brasileiro; é preciso também combater esse vira-latismo servil, que se revela ridiculamente em atos como bater continência para a bandeira dos Estados Unidos ou torcer para que nosso país seja invadido pelos norte-americanos. E, se antes, a lavagem cerebral e a liquidação da nossa autoestima aconteciam principalmente através dos filmes da Globo, com enredos inverossímeis e heróis fodões mais inverossímeis ainda – que não tinham nada a ver com nossa realidade – desde a Sessão da Tarde até a hora de irmos dormir, hoje, a situação é mais preocupante. Ontem, por exemplo, a CNN internacional revelou que Trump está preparando o envio de drones militares para a América do Sul. Esses drones são especializados em espionagem e ataque. Lembrando que o Brasil está cercado de governantes com seus próprios complexos de vira-lata, os quais têm se caracterizado pela bajulação a tudo que vem dos Estados Unidos, como é o caso dos governos de Argentina e Colômbia. 

Bem que eu gostaria de dizer: – Nonada... Mas o problema realmente preocupa. A questão do nosso desenvolvimento nacional pressupõe a superação desse complexo de vira-latas. “Temos dons em excesso”, já afirmava Nelson Rodrigues naquela crônica. Devemos realmente valorizar esses dons; valorizar nossos talentos, seja no gramado, nas letras, na sétima arte, na cultura em geral, nos esportes ou nas ciências. Valorizar o que é nosso é um ato político; bem como só através de políticas de valorização do nacional, vamos poder desenvolver também o amor-próprio e a fé em nossa capacidade de superar os problemas do país.  

 

sábado, 21 de fevereiro de 2026

A revolução inacabada: Jean Laplanche e o estrangeiro no espelho

 




Sigmund Freud observou, notoriamente, que a ciência desferiu três golpes monumentais no narcisismo coletivo da humanidade. Primeiro, Copérnico deslocou a Terra do centro do cosmos. Segundo, Darwin nos destituiu do nosso status divino único, situando-nos firmemente dentro do reino animal. O terceiro golpe, e talvez o mais íntimo, foi a psicanálise, que revelou que o “eu” não é senhor na sua própria casa, mas está sujeito às forças indomáveis do inconsciente.

No entanto, para o psicanalista francês Jean Laplanche, essa revolução copernicana permaneceu inacabada. Enquanto Freud identificou a presença do inconsciente, ele por vezes  teria sugerido que as nossas pulsões são “nossas” por direito de nascença. Laplanche, por sua vez, argumenta que o inconsciente não é uma herança biológica, mas sim um “corpo estranho” implantado em nós pelo Outro. Não somos apenas movidos por forças ocultas; labutamos sob o peso de um passado não assimilado que pertenceu a outra pessoa antes de pertencer a nós.

 

O inconsciente como mensagem do Outro

 

Assim, Laplanche parte da afirmação radical de que o inconsciente não é um instinto primordial, mas sim uma mensagem. Ele postula que o inconsciente entra na mente como um intruso – uma presença “alienígena” que chega de fora. Para entender isso, devemos olhar para a distinção linguística entre der Andere e das Andere. Enquanto der Andere se refere ao Outro como pessoa (o cuidador), das Andere se refere ao Outro como “coisa” – a mensagem enigmática e não traduzida que permanece na mente da criança muito depois de a interação ter passado.

Ao enquadrar o inconsciente como um legado dessas mensagens, Laplanche descentraliza o sujeito humano ainda mais do que Freud pretendia. Se as partes mais íntimas da nossa psique são compostas por restos do discurso de outra pessoa, então o nosso “eu” é, no seu âmago, uma construção relacional.

 

“Esta - como Laplanche a chama - revolução coperniciana não foi, no entanto, em sua opinião, levada à sua conclusão lógica dentro da própria psicanálise.”

 

Para além do trauma: A Teoria da Sedução Generalizada

 

Nos primórdios da psicanálise, Freud propôs uma teoria “especial” da sedução, que sugeria que a neurose era o resultado de abuso sexual real. Quando mais tarde quando ele abandonou essa visão em favor de pulsões biológicas inatas, Laplanche argumentou que Freud jogou fora uma verdade vital. Laplanche propôs, em vez disso, uma Teoria da Sedução Generalizada, que descreve não um evento patológico, mas a “situação antropológica fundamental” compartilhada por todo ser humano.

Esta situação é definida por uma assimetria radical: a relação entre um bebê desamparado e vulnerável e um cuidador adulto. Cada ato de cuidado – seja alimentar, lavar ou acalmar – está saturado de comunicação. No entanto, porque o adulto possui um inconsciente reprimido próprio, essas interações ordinárias nunca são “puras”. Elas estão carregadas de “mensagens enigmáticas” – sinais não-verbais e “ruído” sexual que o adulto fornece inconscientemente e para os quais a criança está biológica e psiquicamente despreparada para processar.

 

O enigma do seio

 

Nada ilustra esse enigma de forma mais pungente do que a análise de Laplanche sobre a amamentação. Na superfície, a interação é de autopreservação biológica: a criança busca o leite para sobreviver. No entanto, o seio é também uma zona erógena primária para a mãe, ligada à sua própria vida sexual adulta e à sua história reprimida.

Enquanto a criança se alimenta, ela percebe um excedente de significado – um certo “ruído” ou excitação – que não tem nada a ver com a função de fornecer nutrição. Crucialmente, esta mensagem é enigmática até para a própria mãe; seu próprio inconsciente fala através do cuidado que ela proporciona, transmitindo uma carga libidinal que ela não compreende totalmente. A criança é confrontada com um mistério: “O que o Outro quer de mim?” Esse excesso de significado, que não pode ser categorizado como simples fome ou conforto, torna-se o “objeto-fonte” da pulsão em desenvolvimento da criança.

 

O recalque como fracasso da tradução

 

Laplanche concebe a mente em desenvolvimento como um tradutor incansável. Desde o momento em que nascemos, tentamos dar sentido às mensagens enigmáticas que recebemos do Outro. Usamos fantasias e “teorias sexuais infantis” para tecer essas mensagens numa narrativa coerente de quem somos.

O “eu” (o ego) é efetivamente a soma das nossas traduções bem-sucedidas – as partes da mensagem do Outro que conseguimos integrar. No entanto, a tradução nunca é perfeita. Há sempre um resíduo não traduzido, um “algo ainda a traduzir” (à traduire). Este resíduo é o que constitui o inconsciente. É uma coleção de traduções fracassadas que foram postas de lado, mas que permanecem ativas, exigindo ser compreendidas.

 

“Fracasso da tradução – é isso que é conhecido clinicamente como 'recalque'.”

 

A recusa do analista: a psicanálise como anti-hermenêutica

 

Esta mudança teórica altera radicalmente o objetivo da análise. Laplanche defendia uma abordagem “anti-hermenêutica”, contrastando-a com os métodos tradicionais onde o analista fornece ao paciente significados “prontos” ou símbolos universais. Em vez disso, o psicanalista deve praticar a Versagung – uma recusa rigorosa.

O analista não deve apenas recusar as demandas do paciente por conselhos ou metas, mas também deve negar a si mesmo o “conhecimento” dos sintomas do paciente. Esse silêncio cria uma transfert en creux, ou uma “transferência em oco”. Ao abster-se de preencher o espaço com as suas próprias teorias, o analista recria a situação antropológica fundamental. Ele torna-se um local de “desconstrução”, desmontando as traduções falhas e fixas do paciente nos seus componentes originais. Somente através desse esvaziamento pode o paciente começar o trabalho de uma “nova tradução”, ressintetizando a sua história de uma forma que permita uma maior liberdade psíquica.

 

Conclusão: o outro interno

 

O trabalho de Jean Laplanche convida-nos a ver o inconsciente não como um porão escuro de impulsos primitivos, mas como um arquivo interno e vibrante das nossas primeiras relações. Somos, num sentido muito real, compostos pelos mistérios e “ruídos” deixados por aqueles que primeiro cuidaram de nós.

Esta perspectiva sugere que o crescimento pessoal não é uma jornada de “autodescoberta” – como se o eu fosse um tesouro pré-existente à espera de ser encontrado – mas sim um trabalho criativo e vitalício de tradução. Se as nossas profundezas mais recônditas são ocupadas por um “estrangeiro”, então a tarefa de viver é encontrar continuamente uma linguagem para esse outro interno, transformando os enigmas do nosso passado nos alicerces do nosso futuro. Somos os autores de um livro cujos primeiros capítulos foram escritos por outra pessoa, e as nossas vidas são o esforço contínuo para traduzir essas linhas iniciais e misteriosas numa história que seja nossa.

 

 

Fonte:

 

GRZYBOWSKI, Antoni, GRZYBOWSKI, Dariusz. The unconscious as a message from the other. Theory and pratice of psychoanalysis according to Jean Laplanche. Psychoterapia 2 (185), 2018, pages: 21–34. Disponível em: <https://www.semanticscholar.org/paper/THE-UNCONSCIOUS-AS-A-MESSAGE-FROM-THE-OTHER.-THEORY-Grzybowski-Grabowski/03121162e89d154355c3f3a5351c633c927397a1>. Acesso em 18 fev. 2026.

 

 

segunda-feira, 3 de novembro de 2025

O horror nos tempos de cólera

 


GLEDSON SOUSA 


Nessa história não há mocinhos, como nem todos são bandidos. Visto do alto, o que choca é a indiferença frente a muitos corpos mortos, a maior parte muito jovens; o que choca é a espetacularização da barbárie, o que choca é reconhecer que foi uma operação feita para colher frutos políticos à custa da morte de muitos. Necropolítica.

Rio de Janeiro, 29 de outubro de 2025: na cidade nem tão maravilhosa assim, um contingente de cerca de 2500 policiais sobe os Morros do Complexo do Alemão e da Penha para cumprirem com mandados de busca e apreensão contra chefões do Comando Vermelho, a maior facção criminosa do Rio. A ação é legal, mas pelo desencadear, não é legítima, porque ao que parece, havia a ordem expressa de “mate primeiro, pergunte depois”; não que com os traficantes seria diferente caso encontrassem os policiais: a crueldade do tráfico é costumeira, são frequentes as torturas e os assassinatos que são usados como formas de intimidação contra a população local.

Mas quando falamos de policiais, estamos falando de agentes do estado: se a ação do estado se equipara – aos olhos da população e na sua forma prática – às ações dos criminosos, turva-se a fronteira do que é lícito ou não, do que é legítimo ou não, do que é civilização, do que é barbárie. A lei não torna lícito o crime que foi cometido em nome dela, talvez no máximo atenue as penas, se levar em consideração as peculiaridades dessa guerra sem fim contra o tráfico.

Choca perceber que a maior parte dos corpos expostos eram de homens jovens e negros  e que, como em toda guerra, as pessoas morrem executando ordens daqueles QUE NÃO VÃO PARA A GUERRA; o mesmo pode-se aplicar aos policiais: o governador e o secretário que ordenaram essa ação midiática não subiram o morro, assistiram dos seus gabinetes, com o regozijo próprio dos hipócritas.

Hipocrisia é algo bem presente nessa crise: num vídeo exibido no Youtube, três policiais oravam ajoelhados antes de subirem o morro: a hipocrisia não é deles, até entendo que os mesmos deveriam estar pedindo proteção, sabedores dos riscos que corriam; a hipocrisia é daqueles que dos púlpitos discursam achando que o deus em que eles acreditam ou o cristianismo legitima as mortes, a hipocrisia é daqueles que criticam quando acontece uma batida policial no centro financeiro da Faria Lima mas acham normal que a policia atire a esmo nos morros e favelas.

Porque essa é a questão: os chefões reais do tráfico de drogas – que movimenta algo em torno de centenas de bilhões de dólares por ano (segundo estimativas da ONU),  um valor entre 320 a 650 bilhões ou mais, é difícil estimar com precisão por se tratar de uma economia ilícita – não estão nos morros, florestas ou plantações, eles estão em corporações, condomínios de luxo e em circuitos que são vedados tanto aos traficantes que ficam nos morros quantos aos policiais que morrem cumprindo seu dever, e não poucas vezes traficantes e autoridades estão unidos em associações promíscuas numa rede de corrupção que movimenta milhões.

Hipocrisia também daqueles que consomem drogas e fazem discursos contra o tráfico: num caso recente que aconteceu no estado de São Paulo, um policial e sua esposa foram encontrados mortos num motel; ao fazerem as diligências e examinarem o caso, descobriram que o policial e sua esposa haviam consumido cocaína e álcool, numa associação que se revelou fatídica. Não é preciso dizer mais nada.

Somente que policiais e os pequenos traficantes do morro no fundo são vítimas de uma superestrutura que os empurra para os lugares que eles ocupam respectivamente, mas que talvez essa seja uma guerra que permanecerá, porque no fundo a guerra deixa tudo como está: o tráfico permanece, os policiais desafogam seu ódio por tanta coisa sofrida, os néscios se rejubilam com as mortes e os chefões continuam longe, protegidos, guardados em algum lugar, abrindo alguma fintech ou algum restaurante de luxo, investindo em fazendas e usinas de produção de álcool.

Policiais e os jovens que são vítimas do tráfico deveriam compreender que o verdadeiro inimigo é uma estrutura de classe e um sistema que precisa que tudo permaneça como está: uma sociedade hierarquizada, um contingente imenso de desempregados, um discurso maniqueísta e esquizofrênico que esconde a verdadeira natureza da realidade: que há uma elite global que enriquece continuamente com tráfico (de drogas, de pessoas, de animais…), destruição da natureza, com guerras e massacres, mas que disfarça suas ações e a todos envolve numa progressão apocalíptica em direção ao nada. Necrocapitalismo.

Permanece a imagem dos corpos expostos na rua, que nem sabemos mais se é Rio de Janeiro, Gaza ou Sudão do Sul: quando se trata da morte de comunidades pobres (e os policiais fazem parte dessas comunidades), a morte é homogênea e silenciada.

Mas sem dúvida, o governador do Rio de Janeiro tem as mãos sujas de sangue e entrou para a história como um perpetrador de massacres, historiadores do futuro só lembrarão dele por ser aquele que ordenou “O massacre do Morro do Alemão e da Penha no ano de 2025”: triste feito.

 

Post Scriptum: Escrevi esse texto dia 30/10/2025 e no sábado(01/11/2025), circulavam os vídeos que mostram o governador do Rio de Janeiro cantando numa igreja católica da Barra da Tijuca, sob o aplauso dos fiéis… necrocristianismo…

 

Texto originalmente publicado em: https://triplov.pt/o-horror-nos-tempos-de-colera/

 

domingo, 24 de agosto de 2025

Plano de Práticas, Recursos e/ou Materiais Pedagógicos Inclusivos na Escola

 


Plano de Práticas, Recursos e/ou Materiais Pedagógicos Inclusivos na Escola

 

Tema/Recurso/Proposta: O presente plano consiste em um projeto interdisciplinar voltado ao aprofundamento da análise do contexto de acessibilidade do Centro Educa Mais Jansen Veloso (Pio XII-MA).

 

Projeto interdisciplinar “Nossa escola inclusiva: cada um de nós é único”

 

Contexto Analisado: Este plano é destinado à 1a Série do Ensino Médio, cobrindo componentes curriculares de Língua Portuguesa, História, Geografia, Artes e Tecnologia. A proposta surge da necessidade de trabalhar a educação inclusiva de forma prática e sensorial, promovendo a empatia, o respeito às diferenças e a quebra de barreiras atitudinais entre os estudantes.

Objetivo Geral:

Promover uma cultura escolar de inclusão, valorização da diversidade e empatia, por meio de experiências sensoriais, produções colaborativas e reflexões críticas sobre as barreiras enfrentadas por pessoas com deficiência.

Objetivos Específicos:

→ Compreender os conceitos de acessibilidade, barreiras arquitetônicas, atitudinais e comunicacionais.

→ Vivenciar, por meio de simulações, algumas das dificuldades encontradas por pessoas com diferentes tipos de deficiência.

→ Produzir coletivamente um produto final (guia ou mapa digital acessível) que beneficie toda a comunidade escolar.

→ Desenvolver atitudes de cooperação, respeito e apoio à acessibilidade.

Desenvolvimento da Proposta:

Etapa 1 - Sensibilização e contextualização (2 aulas)

Aula 1 - Roda de Conversa: O professor inicia com a pergunta “O que é uma escola inclusiva?”. As respostas são anotadas. Introduz-se os conceitos de deficiência, acessibilidade e barreiras (com exemplos vídeos curtos).

Aula 2 - Estações Sensoriais: A sala é dividida em 4 estações de experiência:

  Estação Braille: textos em braille e uma placa com o alfabeto. Os alunos tentam escrever seu nome em papel relevo com um punção.

  Estação Baixa Visão: óculos simuladores de visão turva, tubular e com manchas. Os alunos tentam ler um livro e navegar por um app no tablet.

  Estação Mobilidade: cadeira de rodas e muletas. Um percurso é montado com obstáculos (mesas, mochilas no chão). Os alunos experimentam se locomover.

  Estação Surdez: fones de ouvido com ruído branco (simulando perda auditiva). Os alunos tentam se comunicar apenas por gestos e expressões faciais para adivinhar uma palavra.

  Discussão: após a rotação, uma discussão guiada é realizada: “O que foi difícil?”, “Como nos sentimos?”, “O que nossa escola tem ou não tem para evitar essas dificuldades?”.

Etapa 2 - Pesquisa e diagnóstico (3 aulas)

Os alunos, em grupos, serão os “detetives da acessibilidade”. Cada grupo fará um levantamento fotográfico e de anotações em um ambiente da escola (pátio, banheiros, biblioteca, sala de aula, corredores). Eles buscarão identificar:

→ Barreiras arquitetônicas: degraus, portas estreitas, piso escorregadio.

→ Barreiras comunicacionais: sinalização ausente ou apenas visual, ausência de informação em braile ou formatos acessíveis.

→ Barreiras atitudinais: observar como as pessoas interagem (ou não) com colegas com deficiência.

Etapa 3 - Produção e criação (3 aulas)

Com base no diagnóstico, a turma decidirá criar um “Mapa Digital Acessível da Escola”.

Divisão de Tarefas:

Grupo Design: fotografará os locais e usará um app de desenho para criar ícones acessíveis.

Grupo Texto: redigirá descrições claras e objetivas de como chegar a cada local (para ser transformado em áudio).

Grupo Narração: gravará a audiodescrição dos caminhos e a descrição das fotos.

Grupo Montagem: utilizará uma ferramenta digital (ex: Google Apresentações, Canva) para montar o mapa, inserir os ícones, fotos e links de áudio.

Etapa 4 - Socialização (1 aula)

Apresentação do Mapa Digital Acessível para toda a escola em uma assembleia, com convite à direção, coordenação e outros alunos.

Os grupos explicarão o processo e entregarão simbolicamente o mapa (via e-mail, QR Code impresso) à direção, propondo que ele seja disponibilizado no site da escola e para novos alunos.

Materiais Necessários:

→ Materiais para estações: óculos simuladores, cadeira de rodas, muletas, fones de ouvido, papel cartão, punção para braile, alfabeto braile.

→ Tablets ou smartphones para registro fotográfico e gravação.

→ Computadores com acesso à internet para edição.

→ Material de escritório: cartolinas, canetas, fita adesiva.

Profissionais Envolvidos:

→ Professores de sala de aula: lideranças do projeto, articulação com os componentes curriculares, mediação das atividades.

→ Professores de Educação Especial (AEE): consultoria especializada na adaptação das atividades, fornecimento de recursos de TA, suporte na criação das estações sensoriais e na mediação das discussões.

→ Direção Escolar: apoio logístico (fornecimento de recursos, liberação de espaços), recepção da proposta dos alunos e encaminhamento das sugestões para melhorias na infraestrutura.

→ Cuidadores: apoio direto a estudantes com deficiência durante as atividades práticas, garantindo sua participação plena.

Estudantes e Familiares:

Estudantes: são os agentes centrais de toda a proposta, desde a vivência até a produção e apoio. A participação é ativa e colaborativa.

Familiares: serão convidados a participar de uma “Mostra de Acessibilidade” ao final do projeto, onde os alunos apresentarão o mapa e suas experiências. Podem também ser incentivados a relatar, via questionário online, situações de barreiras que observam no entorno da comunidade.

Tecnologia digital e tecnologia assistiva:

Tecnologia digital: Tablets/smartphones (câmera e gravador de voz), software de edição (Canva, Google Apresentações). Motivo da escolha: ferramentas intuitivas, gratuitas e colaborativas, que permitem a criação de um produto digital de fácil compartilhamento.

Tecnologia assistiva: óculos simuladores de baixa visão. Motivo: permitem uma experiência empática prática, indo além da teoria. Funcionalidade: simulam condições como catarata, retinose pigmentar e glaucoma.

Softwares leitores de tela (ex: NVDA, VoiceOver). Motivo: para testar a acessibilidade do mapa digital produzido. Funcionalidade: os alunos usarão o leitor para navegar pelo mapa que criaram, verificando se as descrições de áudio estão corretas e se a navegação é lógica. Isso os torna produtores de conteúdo verdadeiramente acessíveis.

Avaliação (formativa, participativa e inclusiva):

A avaliação será processual e multifacetada, focando no desenvolvimento das competências socioemocionais e cognitivas:

Roteiro de Observação (Professor): checklist durante as atividades em grupo para avaliar participação, colaboração, empatia e resolução pacífica de conflitos.

Portfólio digital do grupo: cada grupo manterá um arquivo (uma pasta compartilhada) com fotos, anotações das pesquisas e as versões de rascunho do mapa. A evolução do trabalho será o foco.

Autoavaliação e Avaliação por Pares: após a socialização, os alunos preencherão um formulário simples com duas perguntas:

→ “O que eu mais aprendi sobre acessibilidade neste projeto?”

→ “Como meu grupo trabalhou junto? O que cada um contribuiu?”

Avaliação do Produto Final (Coletiva): toda a turma, junto com o professor de AEE, avaliará o Mapa Digital Acessível usando uma rubrica simples com critérios como: “Clareza das informações”, “Qualidade das audiodescrições”, “Funcionalidade (o mapa é fácil de usar?)”. O maior indicador de sucesso será a adoção e utilização do mapa pela gestão escolar.

 

 

REFERÊNCIAS

 

BERSCH, Rita. Recursos tecnológicos para a promoção da acessibilidade. YouTube, maio de 2024. Disponível em <https://www.youtube.com/watch?v=R_fArTjLpb0>. Acesso em 24 ago. 2025.

DAINEZ, Débora. Desenvolvimento e deficiência na perspectiva histórico-cultural: Contribuições para educação especial e inclusiva. Rev. psicol., Santiago , v. 26, n. 2, p. 151-160, dic. 2017.  Disponível em <https://www.scielo.cl/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0719-05812017000200151>. Acesso em 24 ago. 2025.

GALVÃO FILHO, Teófilo. X CBEE: MR14 - Perspectivas para a Tecnologia Assistiva nos espaços educacionais. YouTube, julho de 2022. Novembro de 2021. Disponível em <https://www.youtube.com/watch?v=JCxTX0I3YHg>. Acesso em ago. 2025.
LUSTOSA, Francisca Geny; FIGUEREDO, Rita Vieira de.
Inclusão, o olhar que ensina! a construção de práticas pedagógicas de atenção às diferenças. E-book. Fortaleza: Imprensa Universitária, UFC, 2021.
PLETSCH, Márcia Denise. Estrutura da Educação Especial numa perspectiva inclusiva, acessibilidade e suas diferentes dimensões.
YouTube, maio de 2022. Disponível em <https://www.youtube.com/watch?v=f8z0_kvpo1M>. Acesso em ago. 2025.

PLETSCH, Márcia Denise; SOUZA, Izadora Martins da Silva de. Diálogos entre acessibilidade e Desenho Universal na Aprendizagem. In.: PLETSCH, Márcia Denise et al. (org.). Acessibilidade e Desenho Universal na Aprendizagem. Campos dos Goytacazes (RJ): Encontrografia; Rio de Janeiro: ANPEd, 2021.

VIGOTSKI, Lev Semionovich. Psicologia, educação e desenvolvimento. São Paulo: Expressão Popular, 2021. 

 

 

 

domingo, 10 de agosto de 2025

materpaterna patermaterno



Pulsão materna

Função materna

             mãoterna

Pulsão paterna

Função paterna

             pãoterno

       materpaterna

       patermaterno 


terça-feira, 29 de julho de 2025

De como as crianças se apropriam dos conceitos científicos

Neste vídeo, temos um exemplo simples da importância da linguagem, para a criança, na apropriação de conceitos científicos no dia a dia.


segunda-feira, 7 de abril de 2025

Incelenças

 

 

Excelências. 

Empresa de excelência. 

Escola de excelência.

Excelência pessoal. 

Excelências. 

O conceito está por aí, persuadindo-nos que basta seguir alguns procedimentos e a excelência virá.

Virá?

A excelência contraria o óbvio: a imperfeição de que são constituídos os seres humanos, saudosos de um não-sei-o-quê que sempre nos acompanha.

Somos excelentes em nossas imperfeições.

Se não nos enquadramos no script da excelência, somos menos gente? Somos tão-somente um empecilho, carta fora do baralho? Mesmo que o roteiro nos reserve o papel de desentendido dos outros e algoz de si mesmo? Encaixe-se; ou será substituído.

Qual o preço dessa excelência? “Tome estas pílulas”, disse o médico da empresa ao meu taciturno amigo, num dos poucos dias em que este rapaz decidiu ser mais falante com os colegas de trabalho. “Você parecia alterado”, disse o médico ao meu amigo, que continua consumindo as milagrosas-pílulas-pró-excelência-empresarial.

O “excelente” professor de matemática da Escola Normal da minha infância ia aos sábados levar problemas para o meu pai resolver… Meu pai, que andava longe da excelência paterna, andava misteriosamente próximo duma suposta excelência matemática, mesmo tendo vivido na roça e mal concluído o primário… Não sabemos, talvez nunca saibamos, como é moldada a matéria de que nos constituímos...

Sei que somos insubstituíveis, pois mesmo que reponham a peça que você é, a nova peça será feita de outro material: a coisificação de outras experiências. Logo, você não estará sendo substituído. Cada ser humano é uma peça única: daí sermos insubstituíveis.

No Nordeste, excelência virou incelença. Mui interessante. Mudaram-se os prefixos: o ex (para fora) se transformou no in (para dentro). A incelença não é algo para “se amostrar”, mas para se viver, para se consolidar. 

Ou para se rememorar, como algo que nos constituiu, como as incelenças, cantigas de sentinelas, benditos de defuntos…

… Tão gostosamente de se ouvir também incelença para o trato das autoridades que estão léguas e léguas distantes da excelência como pessoas boas…

Daí eu cantar incelenças: não só para o que se perdeu, mas para a vida, e para o que em nós buscamos: não a perfeição, mas o mistério.