Sigmund Freud observou, notoriamente, que a ciência desferiu três golpes monumentais no narcisismo coletivo da humanidade. Primeiro, Copérnico deslocou a Terra do centro do cosmos. Segundo, Darwin nos destituiu do nosso status divino único, situando-nos firmemente dentro do reino animal. O terceiro golpe, e talvez o mais íntimo, foi a psicanálise, que revelou que o “eu” não é senhor na sua própria casa, mas está sujeito às forças indomáveis do inconsciente.
No entanto, para o psicanalista francês Jean Laplanche, essa revolução copernicana permaneceu inacabada. Enquanto Freud identificou a presença do inconsciente, ele por vezes teria sugerido que as nossas pulsões são “nossas” por direito de nascença. Laplanche, por sua vez, argumenta que o inconsciente não é uma herança biológica, mas sim um “corpo estranho” implantado em nós pelo Outro. Não somos apenas movidos por forças ocultas; labutamos sob o peso de um passado não assimilado que pertenceu a outra pessoa antes de pertencer a nós.
O inconsciente como mensagem do Outro
Assim, Laplanche parte da afirmação radical de que o inconsciente não é um instinto primordial, mas sim uma mensagem. Ele postula que o inconsciente entra na mente como um intruso – uma presença “alienígena” que chega de fora. Para entender isso, devemos olhar para a distinção linguística entre der Andere e das Andere. Enquanto der Andere se refere ao Outro como pessoa (o cuidador), das Andere se refere ao Outro como “coisa” – a mensagem enigmática e não traduzida que permanece na mente da criança muito depois de a interação ter passado.
Ao enquadrar o inconsciente como um legado dessas mensagens, Laplanche descentraliza o sujeito humano ainda mais do que Freud pretendia. Se as partes mais íntimas da nossa psique são compostas por restos do discurso de outra pessoa, então o nosso “eu” é, no seu âmago, uma construção relacional.
“Esta - como Laplanche a chama - revolução coperniciana não foi, no entanto, em sua opinião, levada à sua conclusão lógica dentro da própria psicanálise.”
Para além do trauma: A Teoria da Sedução Generalizada
Nos primórdios da psicanálise, Freud propôs uma teoria “especial” da sedução, que sugeria que a neurose era o resultado de abuso sexual real. Quando mais tarde quando ele abandonou essa visão em favor de pulsões biológicas inatas, Laplanche argumentou que Freud jogou fora uma verdade vital. Laplanche propôs, em vez disso, uma Teoria da Sedução Generalizada, que descreve não um evento patológico, mas a “situação antropológica fundamental” compartilhada por todo ser humano.
Esta situação é definida por uma assimetria radical: a relação entre um bebê desamparado e vulnerável e um cuidador adulto. Cada ato de cuidado – seja alimentar, lavar ou acalmar – está saturado de comunicação. No entanto, porque o adulto possui um inconsciente reprimido próprio, essas interações ordinárias nunca são “puras”. Elas estão carregadas de “mensagens enigmáticas” – sinais não-verbais e “ruído” sexual que o adulto fornece inconscientemente e para os quais a criança está biológica e psiquicamente despreparada para processar.
O enigma do seio
Nada ilustra esse enigma de forma mais pungente do que a análise de Laplanche sobre a amamentação. Na superfície, a interação é de autopreservação biológica: a criança busca o leite para sobreviver. No entanto, o seio é também uma zona erógena primária para a mãe, ligada à sua própria vida sexual adulta e à sua história reprimida.
Enquanto a criança se alimenta, ela percebe um excedente de significado – um certo “ruído” ou excitação – que não tem nada a ver com a função de fornecer nutrição. Crucialmente, esta mensagem é enigmática até para a própria mãe; seu próprio inconsciente fala através do cuidado que ela proporciona, transmitindo uma carga libidinal que ela não compreende totalmente. A criança é confrontada com um mistério: “O que o Outro quer de mim?” Esse excesso de significado, que não pode ser categorizado como simples fome ou conforto, torna-se o “objeto-fonte” da pulsão em desenvolvimento da criança.
O recalque como fracasso da tradução
Laplanche concebe a mente em desenvolvimento como um tradutor incansável. Desde o momento em que nascemos, tentamos dar sentido às mensagens enigmáticas que recebemos do Outro. Usamos fantasias e “teorias sexuais infantis” para tecer essas mensagens numa narrativa coerente de quem somos.
O “eu” (o ego) é efetivamente a soma das nossas traduções bem-sucedidas – as partes da mensagem do Outro que conseguimos integrar. No entanto, a tradução nunca é perfeita. Há sempre um resíduo não traduzido, um “algo ainda a traduzir” (à traduire). Este resíduo é o que constitui o inconsciente. É uma coleção de traduções fracassadas que foram postas de lado, mas que permanecem ativas, exigindo ser compreendidas.
“Fracasso da tradução – é isso que é conhecido clinicamente como 'recalque'.”
A recusa do analista: a psicanálise como anti-hermenêutica
Esta mudança teórica altera radicalmente o objetivo da análise. Laplanche defendia uma abordagem “anti-hermenêutica”, contrastando-a com os métodos tradicionais onde o analista fornece ao paciente significados “prontos” ou símbolos universais. Em vez disso, o psicanalista deve praticar a Versagung – uma recusa rigorosa.
O analista não deve apenas recusar as demandas do paciente por conselhos ou metas, mas também deve negar a si mesmo o “conhecimento” dos sintomas do paciente. Esse silêncio cria uma transfert en creux, ou uma “transferência em oco”. Ao abster-se de preencher o espaço com as suas próprias teorias, o analista recria a situação antropológica fundamental. Ele torna-se um local de “desconstrução”, desmontando as traduções falhas e fixas do paciente nos seus componentes originais. Somente através desse esvaziamento pode o paciente começar o trabalho de uma “nova tradução”, ressintetizando a sua história de uma forma que permita uma maior liberdade psíquica.
Conclusão: o outro interno
O trabalho de Jean Laplanche convida-nos a ver o inconsciente não como um porão escuro de impulsos primitivos, mas como um arquivo interno e vibrante das nossas primeiras relações. Somos, num sentido muito real, compostos pelos mistérios e “ruídos” deixados por aqueles que primeiro cuidaram de nós.
Esta perspectiva sugere que o crescimento pessoal não é uma jornada de “autodescoberta” – como se o eu fosse um tesouro pré-existente à espera de ser encontrado – mas sim um trabalho criativo e vitalício de tradução. Se as nossas profundezas mais recônditas são ocupadas por um “estrangeiro”, então a tarefa de viver é encontrar continuamente uma linguagem para esse outro interno, transformando os enigmas do nosso passado nos alicerces do nosso futuro. Somos os autores de um livro cujos primeiros capítulos foram escritos por outra pessoa, e as nossas vidas são o esforço contínuo para traduzir essas linhas iniciais e misteriosas numa história que seja nossa.
Fonte:
GRZYBOWSKI, Antoni, GRZYBOWSKI, Dariusz. The unconscious as a message from the other. Theory and pratice of psychoanalysis according to Jean Laplanche. Psychoterapia 2 (185), 2018, pages: 21–34. Disponível em: <https://www.semanticscholar.org/paper/THE-UNCONSCIOUS-AS-A-MESSAGE-FROM-THE-OTHER.-THEORY-Grzybowski-Grabowski/03121162e89d154355c3f3a5351c633c927397a1>. Acesso em 18 fev. 2026.
