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segunda-feira, 4 de março de 2013

“O professor tem que fazer um trabalho contraideológico, tentando fazer da escola um lugar melhor.”



No dia 02 de fevereiro concedi essa entrevista a um grupo de alunos do curso de Ciências Naturais, da Universidade Federal do Maranhão, para apresentação de trabalho na disciplina Fundamentos da Educação:

PERGUNTA: Você acredita que a educação possa resolver o problema da marginalidade no Brasil?
RESPOSTA: Não. De maneira cabal, completa e resoluta... Não. [A educação] pode contribuir e diminuir esses índices de desigualdade, mas como a questão da marginalidade tem origem na estrutura desigual da sociedade capitalista, baseada em princípios de lucro e mais valia, onde sempre haverá em uma ponta, exploradores e na outra, explorados, a educação não pode resolver definitivamente o problema da marginalidade.
PERGUNTA: E na região Nordeste, como o senhor acredita que acontece a marginalidade e como, de acordo com o seu pensamento, ela pode ser resolvida?
RESPOSTA: A região Nordeste, ela aparece como uma das mais desfavorecidas educacionalmente. A relação disso tem menos a ver com a educação do que com a questão econômica. Nosso país vive um desenvolvimento desigual e com sérios problemas regionais. Vemos o Sul e o Sudeste que são mais desenvolvidos que o Norte e o Nordeste. Por quê? Exatamente porque no Sul e no Sudeste houve um processo de industrialização mais cedo.
PERGUNTA: E com relação ao estado do Maranhão, que a gente vive atualmente, veem-se aí novas politicas educacionais sendo lançadas. O senhor acredita que elas possam resolver o problema da marginalidade?
RESPOSTA: O estado do Maranhão é outro exemplo. O Maranhão não tem uma política de estado específica para a educação. Ainda se faz necessário mudar muitas coisas no estado do Maranhão em relação à educação. [É preciso] tratar a educação com seriedade e desenvolver politicas de estado.
PERGUNTA: No caso do estado do Maranhão, continuando a falar da educação do nosso estado, o senhor acha que um programa voltado totalmente para reformular as politicas desses projetos resolveria o problema que acontece em nossa educação?
RESPOSTA: A resolução passa pela articulação de politicas nacionais, existem alguns programas... que no Maranhão podem resolver alguns desses problemas, mas pra isso é preciso acontecer a valorização do profissional de educação, é preciso tratar a questão com transparência, é preciso articular com outros setores sociais, enfim, é necessário uma articulação com políticas nacionais e tratar [a educação] com seriedade e de forma democrática [...].
PERGUNTA: E no município de Pio XII, onde você está inserido como profissional da educação, como você vê a questão da marginalidade e essa relação entre marginalidade e educação, bem como politicas educacionais para resolver essa questão?
RESPOSTA: Bom, Pio XII fica incluída nessa reflexão geral, nessa relação entre um estado onde a educação não é prioridade e um país onde o desenvolvimento regional é completamente desigual. Pio XII se insere nessa análise; os nossos indicadores também são bastante adversos. O índice de desenvolvimento da educação básica em Pio XII é inferior ao índice maranhense e a média do Maranhão está muito aquém da média brasileira.
PERGUNTA: O senhor acredita que levar a família e a sociedade para a escola resolveria o problema da marginalidade?
RESPOSTA: Nós [professores] acreditamos que melhora, que há uma elevação do nível cultural e do capital humano desses alunos; há uma elevação, mas não a resolução do problema [marginalidade].
PERGUNTA: Em outro momento de sua obra, Saviani fala que a escola, em um dado momento histórico, passou a ser instrumento da burguesia para se autofavorecer. O senhor acredita nessa colocação?
RESPOSTA: Eu acredito. E os professores acabam servindo de instrumento dessa representação ideológica da escola [...].
PERGUNTA: Professor Gilcênio, para a gente concluir, ficou bem claro, pelos seus pontos de vista, que a educação não só não consegue resolver o problema da marginalidade, como ela é um dos causadores ou financiadores para que essa marginalidade continue, que ela exista, ou seja, que exista a desigualdade. Mas assim, o senhor tem uma esperança, uma visão para o futuro, da educação com relação a essa questão da exclusão, da marginalidade, das diferenças socioeducacionais que existem dentro da escola, onde existem privilegiados em detrimento de outros. Qual a sua visão para o futuro, tanto na educação como nessa questão da marginalidade?
RESPOSTA: Pois é, diante de tudo isso, dá-se a impressão de que a educação não serve para nada, mas veja só, a educação serve sim, serve exatamente para que você faça esses esclarecimentos devidos e conscientize os alunos do que de fato acontece, de toda essa ideologia sub-reptícia, implícita, não é descarada. Para você entender que ideologia é essa, realmente você tem que fugir um pouco da padronização do que diz esses documentos oficiais e conhecer essa história por trás. Nosso trabalho é esse, o trabalho do professor é dizer: “Olha por detrás dessa ideia de competência tem isso, não vão se deixar enganar achando que vocês serão os ‘maiorais’” ... Ao mesmo tempo, nós, professores, devemos desenvolver uma profunda responsabilidade de passar os conteúdos, que todo aluno, principalmente da escola pública, tem direito a aprender, conhecer a matemática, a língua portuguesa, a geografia, a história, a biologia, enfim, eles têm esses direitos básicos e nem sempre isso acontece no dia-a-dia. O trabalho do professor é: vocês precisam conhecer isso, para que vocês se tornem cada vez mais humanos, para que possamos cada vez mais subir na nossa escala evolutiva, mas ao mesmo tempo nós precisamos dizer... “Nosso sistema educacional foi feito para excluir alguns ou vários de vocês.” Então, é uma combinação de tudo isso. O professor tem que fazer um trabalho contraideológico, dentro da escola, tentando fazer da escola um lugar melhor.

Entrevista: Kairon Bruno Silva Cruz
Edição de áudio: Daciano Ambrosio Santos Vieira & Antonio Lucas Holanda Da Silva
Transcrição: Kairon Bruno Silva Cruz, Sara Sabrina Cirilo Vieira e Tatiana Da Conceição Dias
Produção: Odeninilson Dos Santos Carvalho & Tatiana Da Conceição Dias

sábado, 22 de dezembro de 2012

Já que o mundo não acabou



Já que o mundo não acabou, fui fazer poesia...


Já que o mundo não acabou
Um poema-brincadeira sobre o fim do mundo
Gilcênio Vieira Souza

Já que o mundo não acabou
Jogue fora essa arrogância
Desembolse sua dor
E reviva o bom da infância.

Já que o mundo não acabou
Não queira mais ser o tal
Veja no neto o avô
E em cada humano um igual.

Já que o mundo não acabou
Saia dessa indiferença
Sorria para o amor
E para o gesto de uma criança.

Já que o mundo não acabou
Não pratique a hipocrisia
Seja você, não um robô
Nem um “vai-com-os-outros, Maria”.

Já que o mundo não acabou
Se lhe pedem esperança, dê.
Sinta horror diante do horror
Não trabalhe pra morrer.

Já que o mundo não acabou
Dance agora aquele tango
Componha um samba de amor
E chame os amigos pra o rango.

Já que o mundo não acabou
Deixe de alienação
Esqueça o que a TV mostrou
Não puxe o saco do patrão.

Já que o mundo não acabou
Assista aos filmes do Chaplin
Ria e chore sem pudor
Reconte-os tintim por tintim.

Já que o mundo não acabou
Aprenda a gostar de poesia
Leia Pessoa, Quintana, Bashô
Espalhe seus versos pelo dia-a-dia

Já que o mundo não acabou
Saiba que ele pode acabar
O lema que o capitalismo criou
É: “meu lucro em primeiro lugar”.

Por isso, já que ele não acabou
Lute por um mundo sem opressão
Combata os que infligem a dor
E manipulam a informação.

Já que o mundo não acabou
Eis a chance de um novo fim:
Não agora, não na base do terror
Mas com vida digna para todos, enfim.

Pio XII, Maranhão, 22/12/2012, 11:53.

sábado, 26 de maio de 2012

O anti-facebook está condenado a vagar sem sossego sob o teto daquela velha esquina


O programa Globo News Literatura de ontem, 25/05, fez um grande desfavor para a humanidade – e principalmente para aqueles que amam a literatura: o registro em vídeo do escritor Dalton Trevisan. Os autores da façanha foram o escritor Claufe Rodrigues, que apresenta o programa, e o repórter cinematográfico William Torgano. Claufe faz questão de nos lembrar que se trata do primeiro registro em vídeo de Trevisan.
Mas o desfavor do programa da Globo não parou aí. A reportagem mostrou ainda a casa em que mora Trevisan. Sem avisar que estava filmando, do portão o autor da matéria chamou o dono da casa. Quando se aproximou e viu a câmara, Dalton voltou imediatamente. Apesar de Trevisan não ser nenhuma dessas efêmeras celebridades promovidas pela imprensa burguesa para nos distrair com bobagens e nos fazer esquecer nossos reais problemas, dá para imaginar o dia seguinte: fotógrafos e câmeras de plantão naquela esquina de Curitiba a fim de novos registros do mais novo ganhador do Prêmio Camões.
O mote para a matéria do Globo News Literatura foi exatamente esse: o Prêmio Camões, concedido a escritores em língua portuguesa, teve Dalton Trevisan como vencedor. O anúncio da 24ª edição do prêmio foi na segunda, 21.
O escritor curitibano é um dos mestres do conto. Suas narrativas curtas, diretas ao ponto, revelam as neuroses, o falso moralismo, os instintos mais torpes de personagens que se esgueiram na noite curitibana e no dia-a-dia da cidade. Apesar do sucesso de sua obra, Trevisan sempre foi avesso a badalações e raramente se deixou fotografar, comportamento que levou a imprensa a batizá-lo com o título de um dos seus livros: “o vampiro de Curitiba”.
O desfavor da Globo consiste em tentar desvendar o mistério – quem é Dalton Trevisan -, quando esse mistério é um dos pontos mais fortes da relação entre os leitores e a obra de Dalton. Tenta desfazer um dos poucos mitos vivos da literatura. E, claro, vivemos numa época em que ninguém pode ficar sem rosto e nada pode permanecer oculto (o mito é o nada que é tudo, já disse Fernando Pessoa).
Mas há também uma falta de respeito com o cidadão Dalton Trevisan, cujo direito à privacidade (não dá entrevistas, nem gosta de ser fotografado) é conhecido de longe pela imprensa. Ou será que em tempos de facebook e reality shows já não se permite mais o direito das pessoas ao anonimato?
Claufe Rodrigues fez parte dos grupos Os Camaleões e Ver o Verso, que nas décadas de 80 e 90 promoviam recitais de poesia, primeiro no Rio de Janeiro, depois por todo o país. Que bela iniciativa. Mas agora ele está na Globo. Não é coincidência que um dos amigos de Claufe e, junto com ele, um dos realizadores daqueles recitais, seja o jornalista Pedro Bial, o “cronista” do Big Brother, o principal reality show brasileiro (ninguém pode ficar sem rosto, nada pode permanecer oculto).
Quanto ao anti-facebook Dalton Trevisan, está agora condenado a vagar sem sossego sob o teto daquela velha esquina de Curitiba, às vésperas do seu 87º aniversário (14 de junho).

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Chomsky: uma educação para o conhecimento, a criatividade e a luta contra a opressão

Nessa entrevista, Noam Chomsky nos fala sobre os dois modelos de educação: um que nos mostra o caminho para pensar e agir a partir das contribuições científicas e culturais que ajudam a nos tornar humanos e a questionar a opressão; outro, que ensina a sermos obedientes, conformados e adaptados às estruturas de manutenção da ordem e do controle social.
  

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

A Balaiada no sertão: a pluralidade uma revolta


Durante a II Mostra Científica do Maranhão, realizada em São Luis, de 17 a 21 de outubro, no São Luis Shopping, a professora Sandra Regina Rodrigues dos Santos divulgou o seu livro “A Balaiada no sertão: a pluralidade de uma revolta”.

Na terça, 18, enquanto divulgava o seu livro no estande da Fapema (Fundação de Amparo à Pesquisa do Maranhão), tive a oportunidade de conversar com a professora.

Com muita simpatia, Sandra falou sobre a “efervescência em torno do tema” Balaiada. O seu livro foca o cenário da luta: o sertão maranhense.

A Balaiada foi um movimento (1838-1841) que colocou, de um lado escravos e sertanejos pobres e, de outro, donos de escravos, latifundiários, grandes comerciantes, o governo da província e o governo federal.

Apesar de a Balaiada contar “em sua composição, com uma maioria de pessoas provenientes das camadas sociais mais humildes da população maranhense”, Sandra Regina lembra a “apropriação ideológica do movimento”: para defender seus interesses, os liberais utilizam a força da Balaiada. Contudo, quando o movimento se radicaliza, estes mesmos liberais apresentam-se como não tendo nenhuma afinidade com os balaios e colaboram com a repressão.

Esta apropriação ideológica dos movimentos populares e a traição aos seus ideias por parte de elementos vendidos às classes dominantes é uma das grandes lições da Balaiada, presentes em vários momentos das lutas de classes.

O livro pode ser adquirido com a própria autora, pelo e-mail: sandramoicana@yahoo.com.br

Sandra Regina é graduada em História pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA), especialista em Historiografia Brasileira e Regional, também pela UFMA, mestre em História e Cultura Política pela Universidade Paulista Júlio de Mesquita Filho (UNESP) e doutora em Políticas Públicas em Educação, pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP).

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Cenário Digital

Apresentação realizada para o Curso "Mídias na Educação" que agora disponibilizo para os leitores do blog:
http://www.pageflip-flap.com/read?r=irQQzS6EvatT5vIwAin#/cover

quarta-feira, 30 de março de 2011

A educação pela greve

Apesar de ser um direito constitucional, a mídia burguesa costuma retratar a greve como algo imoral. Os grevistas são geralmente apresentados como pessoas desalmadas, que não se importam com aqueles que deles dependem. Se a greve for na educação, nem se fala: os professores são tratados como criminosos, que não ligam para os alunos, para o ano letivo, etc., etc.

É comum também a grande mídia ignorar a existência de uma greve, como se o fato de milhares de trabalhadores estarem de braços cruzados não tivesse maiores implicações na sociedade e não representasse notícia relevante. Em vez disso, a mídia dedica matérias sobre o casamento ou a separação de algum famoso ou outras baboseiras, pois distrai o povo, levando-o a esquecer seus reais problemas.

Uma greve não se decide na mesa de um juiz, pois ela é a expressão dos sentimentos e aspirações de uma categoria profissional – e não reflexo de uma mera canetada de um intérprete da lei. Tentar criminalizar uma greve é um gesto de desespero dos que sentem saudades da ditadura e não se habituaram à convivência democrática.

Toda greve é um ato educativo. Quando educadores deixam de dar aula para fazer greve, eles não estão se omitindo do seu trabalho. Pelo contrário: estão defendendo condições dignas, para que o trabalho seja feito com motivação e prazer. Mais do que isso: estão mostrando aos seus alunos que a educação não acontece só em sala de aula (aliás, às vezes, a sala de aula é um disfarce para que se imagine que a educação esteja acontecendo). Se não mostrarmos aos alunos que eles podem e devem intervir na realidade, procurando torná-la mais digna à existência humana, para que serve estarmos todo dia na sala de aula?

Mais do que meras palavras, com o exemplo da greve os educadores estão dizendo aos alunos que ser cidadão é exigir respeito e melhores condições de vida – esperando assim que das carteiras escolares não saiam seres cabisbaixos, mas homens e mulheres que tenham a coragem de exercer sua liberdade de pensamento e de ação.