Pesquisar este blog

sexta-feira, 10 de abril de 2020

Mármore



Seu João não lembrou que tinha algo de especial para comemorar naquela data. Também, como pudera? Os canais de TV transmitiam a decisão, na câmara dos deputados, sobre o impeachment da presidenta Dilma. Seu João votara em Dilma, torcia por ela e acreditava que o impeachment representava uma armação golpista, um conchavo entre os poderosos, para afastar a presidenta e prejudicar os pobres. “Os barão é que vão mandar agora”, protestava Seu João diante da TV, enquanto deputados seguravam placas “tchau querida” e repetiam a monótona e previsível cantilena de que estavam votando pelo impeachment em nome de deus, da família, etc., etc. 
“O pobre vai ficar sem proteção”, repetia Seu João, balançando a cabeça. Como seu marido, Dona Maria também acreditava nessa profecia triste. Mas, diferente de Seu João, Dona Maria não esquecera que, mesmo sendo aquele um domingo atípico, tinha algo a comemorar: os trinta e nove anos de casamento. Isso mesmo: há trinta e nove anos, seu João e Dona Maria tinham se unido em matrimônio, jurando fidelidade até que a morte os separasse. 
Seu João monologava com a TV, irritado com os políticos. “Isso é uma palhaçada! Esses fi de rapariga!”, repetiu ao longo do domingo. Dona Maria, mais calma, só balançava a cabeça. “Já foi tudo combinado entre eles”, analisava, sábia, enquanto levava o bolo ao forno. 
Fez um bolo com todo carinho para comemorar as bodas. Teve que levá-lo à sala, pois Seu João não saía do sofá, mesmo depois de a TV anunciar que já estava confirmado o encaminhamento do impeachment ao senado. 
“O dia de hoje é muito importante pra nós”, disse Dona Maria, enquanto oferecia bolo e café a Seu João. 
“Importante pra todo brasileiro”, ressaltou Seu João, pegando um pedaço de bolo, com os olhos ainda vidrados na TV e sem atentar que ele e Dona Maria falavam de coisas distintas. “’Tão sepultando a democracia, sem choro nem vela”, completou Seu João. 
“Não, João”, corrigiu Dona Maria, “eu tô falando é de nós dois.”
“Pois é”, disse Seu João, ainda com o sentido em outro rumo, “se a Dilma sair, nós vamos perder o nosso aposento.”
“Hômi! Fala alguma coisa que preste!”, implorou Dona Maria. 
“Oxi, e é culpa minha?”
“E sobre nós, tu diz o quê?”
“Vamo se pegar com Deus, viu? Se esse Temer assumir, ele vai ser o cara daquele filme, o exterminador do futuro: vai acabar com o futuro de tudo que é póbi", respondeu Seu João. 
“Aí, meu Deus!", balançava a cabeça Dona Maria, diante do fracasso de suas infrutíferas insinuações. 
“João, que dia é hoje?”, persistia Dona Maria em sua solitária maiêutica. 
“17 de abril de 2016, um dia triste pra democracia brasileira; triste não... O que é que é muito muito mais que triste?”
Dona Maria se afastou, desiludida. Não teve jeito. Seu João não lembrara do aniversário de casamento. 39 anos... Bodas de quê? “Sabe de uma coisa? Vou mais atrás disso não”, disse para si mesma. Durante o restante do dia ficou surda e muda – para Seu João.
“Maria, pega um café pra mim aí.” Silêncio. Nada de café. 
Seu João foi à cozinha, pensando que Dona Maria não o ouvira por estar no quintal, mas ela estava lá, na pia. “Oxi, não me ouviu não, Maria?” Nenhuma resposta. Seu João a encarava; Dona Maria o ignorava. “O que foi? “Agora eu vi!!”, revoltava-se Seu João. 
Procurou a janta; não tinha comida nas panelas. “Minha véia, o que tá acontecendo? Justo num dia como hoje!” Dona Maria continuava mouca. No seu silêncio, recordava tudo o que já tinham passado juntos. Eram lavradores, se conheciam desde a adolescência na roça. Tiveram duas filhas, agora bem casadas, graças a Deus. E hoje João não lembrava mais nem o dia em que tinham se unido, perante Deus e a sociedade. 
“Maria!”, insistia Seu João, ansioso pela voz da mulher. 
Dona Maria terminou de lavar as coisas, foi ao quarto, trocou de roupa e ficou toda arrumada, como se fosse para a missa – foi o que pensou Seu João. “Oxi, Maria, pelo que eu saiba, tem missa agora não.”
Dona Maria nada disse. Caminhou até a porta. “Maria, tu vai pra onde?”
Ao abrir a porta, Dona Maria virou-se para Seu João. 
“Seu João”, falou Dona Maria com excesso de formalidade, “eu quero que o senhor saiba que hoje é o nosso aniversário de casamento. 39 anos. Bodas não-sei-nem-de-quê, nem quero mais saber. Foi na data de hoje que nós nos casamos, 39 anos atrás".
“Eu tô lembrado, abestada!”, tentou se safar Seu João. “Lembrou nada! Oh coisa feia numa pessoa velha é a mentira!”, disse Dona Maria, com toda naturalidade. “Rapaz, me respeite”, disse Seu João, se sentindo insultado. Dona Maria deu as costas e saiu: “Vou pra casa de minha filha”, falou, de costas, nem aí pra Seu João. “Oh presepada”, ironizou Seu João, com Dona Maria já na rua. 
Depois que Dona Maria saiu, seu João se sentou no sofá e desligou a televisão. O que dera em Dona Maria? Tinha culpa de não ter se lembrado da data, num dia como aquele, em que o destino do país estava em jogo? Oh criatura incompreensiva, se comportando como criança! Quem já vira uma coisa daquela? “É assim, é? Pois peraí!”, Seu João se levantou, vestiu a calça e a camisa de ir para a missa, se perfumou e saiu. 

Júlia recebeu a mãe em casa, embora não concordasse com a decisão que tomara. “Dessa vez, a senhora exagerou, a senhora não é mais uma adolescentezinha, nem papai. E ele – tá com a cabeça na política, a senhora tem que entender, ele tá preocupado; e, aqui pra nós, com razão.”
Dona Maria não demonstrava arrependimento. 
Júlia estava conversando pelo celular com Cristina, a irmã mais velha, que morava em outra cidade, contando a novidade, quando bateram na porta. Fernando, esposo de Júlia, foi abrir. Um PM segurava o braço de Seu João. Ao ver aquilo, Júlia se despediu rápido da irmã e correu para a porta.
“Papai, o que é isso?”
Seu João, visivelmente bêbado, olhava para o chão e balançava nas pernas. 
“Dona Júlia, Seu João aprontou!”, disse o policial. 
“O que foi que ele fez?”, perguntou Júlia, angustiada. 
“A gente foi buscar ele no cabaré da Augusta. Pegou uma briga lá, por causa de uma dívida. “
“Uma dívida?" E, repetindo a pergunta, como para se certificar de que ouvira direito: “Uma dívida, papai?”
“Quer dizer: só não pegou uma briga porque – a senhora deve conhecer – Nonato da Borracharia não quis; se não, ele tinha acabado com Seu João. “
“Dívida de quê, papai?”
Seu João continuava mudo, o PM era seu porta-voz:
“Uma aposta. A votação do impeachment. Seu João apostou com Nonato, perdeu e não queria pagar.”
“Nem pago; aquele negócio lá em Brasília foi tudo armação, foi roubo”, disse Seu João, com voz de bêbado. 
“O senhor fique quieto aí”, repreendeu o PM, impaciente. 
Júlia encarava o pai com os olhos de uma mãe que encara o filho que aprontou na escola. 
“Pronto. Tá entregue. A senhora não deixe ele sair”, disse o PM e se dirigiu à viatura, onde outro PM o esperava. 
“Vamos entrar, Seu João”, falou Fernando, o genro, pegando no braço de Seu João, mas este deu um safanão, se afastou e começou a relinchar: “In-on! In-on! In-on! Tudo cavalo, burro, jumento! Tu também, policial, tudo cavalo, burro, jumento!“, gritava Seu João no meio da rua. 
“Pega ele, Fernando, se não, ele vai ser preso!”, implorou Júlia ao marido, o qual correu, segurou Seu João e o arrastou para dentro de casa. Dona Maria estava de pé, na sala, ouvindo tudo, aparentemente calma. 
“Vá deitar, mamãe; a gente dá um jeito nele.”
No dia seguinte, logo de manhã, Júlia teve uma longa conversa com o pai. Dona Maria, que passava pela sala, não quis ouvir. Depois de dar uns conselhos a Seu João, Júlia ligou para Cristina, passou o celular para o pai, que ouviu duras reclamações da filha mais velha, que morava no Sul. Seu João só ouvia, sem nada dizer, como um menino que não consegue justificar suas peraltices. Depois que desligou o celular, Seu João estava triste e pensativo. 
“Fica assim não, pai”, disse Júlia, carinhosa. “Vamos combinar umas coisas” – e pegou o pai pela mão e o levou para o quintal. 

Dona Maria continuava seu protesto silencioso. Quando almoçava, ao lado do genro, Júlia chegou de mansinho, com Seu João. 
“Mamãe, papai quer falar com a senhora. Eu vou logo dizendo: ele quer dar um presente pra senhora. Não é, Seu João?”
O pai se aproximou, infantil, e estirou uma pequena embalagem, numa sacola de presentes, na direção de Dona Maria, que se mantinha impassível, como se não estivesse ouvindo. 
“Receba, Dona Maria; eu tenho certeza absoluta que Seu João é o homem da sua vida”, gracejou Fernando. 
Dona Maria levantou os olhos na direção do genro, parecia que ia sorrir, mas logo recobrou a disfarçada seriedade e recebeu o pacote das mãos de Seu João. 
“Um vestido?”, perguntou Dona Maria, surpresa. 
“Um vestido”, respondeu Seu João, contente. “Parecido com aquele, antigo, lembra?”
Dona Maria lembrou de um tecido comprado na feira, lá-vai-trinta-anos, lembrou das feiras, a vida dos dois eram muitas feiras, na Paraíba, no Maranhão... Feiras, sertões, trabalho e luta – muita luta, para não faltar em casa o alimento. 
E aquele tecido, tão colorido, mas não apapagaiado!, que se transformara num lindo vestido, que usara tanto tanto em sua mocidade... 
Dona Maria virou o vestido de um lado e do outro, analisando minuciosamente. Parecia, sim. 
“Parece”, concluiu, econômica no falar. 
“Mármore”, falou seu João, repentinamente. 
“O quê?”, perguntou Dona Maria, sem entender. 
“Bodas de mármore”, explicou Seu João. “39 anos. Nós completamos bodas de mármore.”
Dona Maria ficou estática por um minuto, mais ou menos, depois, amolecendo o coração:
“Ah véi saliente...”


Imagem de domínio público, disponível em www.pixabay.com.

quinta-feira, 9 de abril de 2020

Rinoceronte branco


Quando ouvi meu nome sendo chamado para receber o prêmio de cientista do ano e vi as lágrimas no rosto de minha esposa, tanta coisa veio em minha mente, que tive que me controlar, para não chorar também, na hora da entrega do prêmio. 
Lembrei de minha mãe que, infelizmente, já se foi... Desde pequeninho, eu sempre dizia que queria ser biólogo. Não lembro, porém, como começou essa atração pela profissão. Lembro que, e acho que devia ter uns 9, 10 anos, vi um programa na TV sobre a ameaça de extinção dos rinocerontes brancos. 
Fiquei comovido com o trabalho dos biólogos que lutavam contra a extinção dos animais. 
Aí teve o triste dia em que meu tio Raimundo fez aquela velha pergunta que todos os adultos me faziam (penso que eles achavam engraçado aquela criança desinibida – e convicta – que eu era): o que eu ia ser quando crescesse. 
Quando respondi, pela centésima trigésima quarta vez, que ia ser biólogo, pois queria ajudar a salvar os rinocerontes brancos, meu tio revelou à queima-roupa, que o último rinoceronte branco que existia, tinha sido assassinado. 
Aquela notícia foi como uma porrada nos meus sonhos de menino. Para eu-criança, já não fazia mais sentido ser biólogo. Com raiva, quando me perguntavam se eu ainda pretendia ser biólogo, respondia com uma provocação: “Vou ser assassino, vou matar gente que mata animal.”
Estou certo, hoje, que minha mãe sofria muito com essa resposta. 
Cresci e chegou a hora de escolher a profissão. Qual foi a minha escolha? Biologia. Pois é. 
Fui lecionar. Depois de dois anos, abandonei a sala de aula, pois me cansei de dizer aos alunos que não tinha sentido ficar procurando respostas prontas na Internet, quando, em vez disso, podiam desafiar o cérebro, em busca da essência do questionamento: o significado íntimo das coisas. Alguns bocejavam, a maioria não entendia a poesia das minhas palavras. 
E, apesar de todas as contrárias evidências, não desisti do meu sonho de menino. 
Me pós-graduei em genética e biologia evolutiva. Me dediquei a estudos voltados para a viabilização da reprodução, em laboratório, de animais já extintos ou ameaçados de extinção. Na verdade, dei continuidade ao trabalho do senhor Raymond Azevedo, pesquisador luso-americano com quem tive a felicidade de trabalhar nos três anos que precederam seu falecimento. 
E, depois de sete anos de uma luta obstinada, conseguimos (eu e minha equipe: claro que não foi a ação de um cientista solitário, isso já ficou evidente, né?) recriar em laboratório o primeiro rinoceronte branco, quarenta e quatro anos depois de a espécie ter sido extinta. 
Esse o motivo do prêmio que acabo de receber. 
A quem dedico? Aos meus pais, hoje ausentes, principalmente à minha mãe. 
Mas dedico também ao meu tio... Meu desbocado – como dizia mamãe – desbocado tio Raimundo, que, sem que o saiba, cultivou no meu inconsciente o destemido insight de um dia ressuscitar o rinoceronte Sudan...


Imagem de domínio público, disponível em www.pixabay.com. 

quarta-feira, 8 de abril de 2020

Verbosidade



Acordei. Espreguicei. Levantei.
Mijei. Banhei. Enxuguei. Escovei. 
Cafezei. Comi. Zapeei. Saí. Fechei. 
Andei. Corri. Subi. Peguei. Pendurei. Entrei. Me apertei. Arrancou. Segurei. Me empurraram. Sacolejou. Correu. Correu. Freou. Parou. Desci. 
Andei. Corri. Andei. Andei. Entrei. Cumprimentei. Entrei. Cumprimentei.
Sentei. Liguei. Esperei. Digitei. Cliquei. Trabalhei. Trabalhei. Trabalhei. Instagramei. 
Trabalhei. Trabalhei. Trabalhei. Instagramei.
Levantei. Andei. Entrei. Fechei. Mijei. Lavei. Abri. Saí. 
Me hidratei. Cafezei. Zapeei. 
Voltei. Sentei. Trabalhei. Trabalhei. Trabalhei. Instagramei. 
Voltei. Sentei. Trabalhei. Trabalhei. Trabalhei. Instagramei. 
Andei. Saí. 
Andei. Andei. Andei. Entrei. Sentei. Atenderam. Pedi. Esperei. Esperei. Esperei. Chegou. Almocei. 
Cafezei. Zapeei. Chamei. Vieram. Perguntei. Ouvi. Paguei. Levantei. Saí. 
Andei. Andei. Andei. Voltei. 
Sentei. Trabalhei. Trabalhei. Trabalhei. Instagramei. 
Trabalhei. Trabalhei. Trabalhei. Parei. Desliguei. 
Levantei. Me despedi. Saí. 
Andei. Corri. Pendurei. Me apertei. Arrancou. Segurei. Empurraram. Sacolejou. Acelerou. Correu. Correu. Parou. Desci. 
Andei. Andei. Andei. Parei. Abri. Entrei. Sentei. 
Liguei. Assisti. Zanguei. Desliguei. Zapeei. Me despi. Deitei. Sentei. Pensei. Levantei. Procurei. Achei. 
Liguei. Pedi. Desliguei. Deitei. Esperei. Zapeei. Esperei. Esperei. Chegou. 
Levantei. Me enrolei. Abri. Recebi. Paguei. Agradeci. Fechei. 
Me desenrolei. Sentei. Desembrulhei. Comi. Bebi. Zapeei. 
Liguei. Assisti. Assisti. Zanguei. Levantei. 
Caguei. Limpei. Banhei. Escovei. 
Liguei. Ventilou. Zapeei. Deitei. Dormi. 
Sonhei?

Imagem de domínio público, disponível em www.pixabay.com. 

terça-feira, 7 de abril de 2020

A espera


Segurava com cuidado o envelope amarelo quando passou em frente ao “Mercadinho Popular”, mas não entrou. 
Olhou para lá com curiosidade, diminuiu o passo. Viu, na pracinha, a banca de revistas. Se aproximou e parou, olhando as manchetes dos jornais. O dono da banca o encarou com desconfiança. Olhou para os lados, sem graça. 
Sentados num banco, dois homens conversavam sobre a licitação que a governadora ia fazer para o palácio de governo: gastos de mais de um milhão com lagostas, camarões, bacalhau, sorvetes (“oito tipos de sorvete”, enfatizou o senhor careca; “e bacalhau do Porto, completou o senhor gorducho), além de bombons, biscoitos champanhe e 2.500 litros de refrigerante. 
Um milhão. “Caralho!”, pensou, “um milhão! E essa galera toda aqui – abandonada”.
Lembrou dos acontecimentos recentes, as decapitações no presídio, conhecia dois dos decapitados, lamentava, pois tinham entrado no crime quase que por acaso. Lembrava o dia e o momento: “eles nem iam pr’aquela festa, tavam de bobeira quando decidiram ir, eu tava com eles”. 
Já fora pego com maconha. “Nem com a porra que eu vou pr'aquele inferno”. Precisava, portanto, tomar cuidado com os gestos, com o movimento, até com a maneira como olhava para as pessoas. 
Encarou o envelope. “Firmeza na mão”, ordenou ao cérebro. Os dois homens continuavam conversando. Também comentavam as mortes no presídio e os ataques a ônibus por toda a cidade. 
“Um milhão! Roubo do caralho! E os mano se fudendo à toazinha”, se revoltava, no seu íntimo. 
Voltou a passear os olhos pelas publicações penduradas na banca de revistas. O dono da banca emitiu um grunhido, que nada significava, exceto, talvez, por querer dizer que não estava dormindo. Saiu.
Voltou. O “Mercadinho Popular” continuava lá, claro. “Mercadinho? A porra ocupa metade do quarteirão e o cara dá o nome de mercadinho”, questionou. 
Se aproximou, parou bem à frente, olhou de soslaio. Um rapaz um pouco mais velho que ele, negro como ele, o olhou com desconfiança. “Segurança”, conhecia um segurança de longe, tinha faro para esse tipo de profissão, se vangloriou. 
Olhava o envelope, como se lesse alguma coisa nele, mas não havia nada escrito. Um homem saiu do mercadinho, vinha em sua direção. Já não era tão jovem. Tinha idade de ser seu pai? Tinha. 
"Ei rapaz, tá fazendo o quê, aí parado?" 
Ficaram cara a cara. “O que foi eu disse?” Por que não respondia a pergunta do homem? 
“Eu disse que quando chegasse, me procurasse. Trouxe o currículo?”
“Trouxe.”
Entregou o envelope ao homem. 
“Vamo lá”, disse o homem, sorrindo. “Relaxa, vai dar tudo certo.”
Acompanhou o homem. Sorriu. Estava feliz. Entraram juntos no mercadinho. 

Imagem de domínio público, disponível em www.pixabay.com.

segunda-feira, 6 de abril de 2020

Avó & netinha



Avó: 54 anos. Netinha: 4 aninhos. 
A avó catava feijão na mesa, a netinha brincava no chão, pertinho, com vários animaizinhos de plástico: um leão, uma girafa, um rinoceronte, um elefante e um hipopótamo. 
A avó separava as escolhas do feijão: principalmente pedras e feijões imprestáveis. Enquanto isso, ouvia a conversa entre os animais: o elefante pedia que o leão não mordesse mais as pessoas, se não, ia dizer ao rinoceronte. 
“Promete que vai ser bonzinho?”, perguntava ao leão o paciente elefante. 
“Prometo”, respondeu o leão.
“Vó, a senhora tinha leão quando a senhora era criança?”
“Tinha!”
“Tinha rinoceronte?”
A avó olhou para o animalzinho na mão da netinha, como para se certificar de como era realmente um rinoceronte. 
“Tinha!”
Os animais retomaram o diálogo. Na cabeça da avó, a verdade: não conseguia lembrar de ter possuído qualquer brinquedo. Lembrava de, ainda menina, ter começado a trabalhar como empregada doméstica. 
Mas, se pegava algum brinquedo da filha da patroa, que era só um pouco mais nova que ela, a patroa imediatamente ordenava que ela soltasse o objeto e fosse se ocupar com outro afazer. 
Era rigorosamente proibido ficar um segundo sequer sem fazer nada! Ficar com a vassoura nas mãos, parada diante da televisão, por exemplo, nem pensar! 
Catar feijão. Uma das recordações que mais lhe doía era aquela. Catava feijão, descontraidamente, quando, do nada, a patroa chega, por trás, e lhe dá um tabefe tão forte que a derruba da cadeira. Assustada, soluçando, logo fica sabendo qual tinha sido seu crime: a patroa a acusava de desperdiçar feijões. 
Segundo a megera, deviam ir para a panela todos aqueles feijões que tinham sido catados com destino ao lixo, pois eram feijões bons. 
A avó acorda com a mordida do leão e com a recriminação do elefante:
“Você prometeu que não ia morder minha vó, leão!”
Ao olhar para cima, a netinha percebeu lágrimas no rosto da avó. 
“Vó, a senhora tá chorando por causa da dentada que o leão deu, né?”
“É”, respondeu a avó com a voz entrecortada, enquanto afagava os cabelos da netinha e a agradecia sorrindo, por a ter despertado do pesadelo de há pouco.



Imagens de domínio público, disponíveis em www.pixabay.com/pt. 


domingo, 5 de abril de 2020

Sandy & Jr.



Sandy & Júnior cantam com um domínio vocal cada vez maior. Ela inclina a cabeça ligeiramente para cima e solta a voz. Júnior se mantém um pouco à sombra da irmã, todos sabem disso. 
Logo, é Sandy quem mais conversa com o público e anuncia as músicas. No entanto, a voz de Júnior faz o contraponto necessário sem o qual a dupla, com certeza, não faria o sucesso que faz. 
Uma mulher pede a música “Maria Chiquinha” – e a dupla encanta a plateia com seu jeito meigo e infantil de interpretar. 
“Vivo por ela!”, pede outro fã. E mais uma vez os irmãos soltam a voz numa impecável interpretação. 
“Canta ‘Vamos pular’!”, diz de lá um engraçadinho, que é logo enxotado pelo público enraivecido. 
É que Sandy & Júnior não podem interpretar essa música, que exige uma coreografia de pulos. Eles usam cadeira de rodas, pois perderam as pernas bem novinhos, Sandy com cinco anos, Júnior com três, depois que um motorista bêbado perdeu o controle do carro e atingiu os dois irmãos quando brincavam na calçada. 
Todo sábado, faz três anos, eles se apresentam na praça, aproveitando o movimento da feira da cidadezinha, que acontece naquele dia. 
“No caso deles, o governo dá o recurso, mas eles gostam de cantar, fazer o quê né?”, se defende a mãe, Juvência Ferreira, acostumada com o falatório das pessoas, que a acusam de explorar os próprios filhos. 
“Medo deles perderem o recurso, por eles viverem cantando? Não, tenho não. O medo agora é porque dizem que esse governo vai mexer com os aposentados, né?"
“Se eles enfrentam preconceito? Enfrentam, não é pouco não. Tem umas pessoas que dizem: ‘eu nunca vi a Sandy ser preta, eu nunca vi o Júnior ser preto’. Então, eles passam por isso."
"Mas o pessoal adora ver eles cantando, graças a Deus.”
“O conselho tutelar e o promotor dizem que eles têm que ficar em casa, mas pergunte a eles se eles querem! Em casa, eles ficam cantando do mesmo jeito, com a diferença que lá eles não têm esse pessoal pra aplaudir, que é o que deixa os bichim feliz”, explica dona Juvência. 
"Como foi que começou? É que eu era fã de Sandy & Júnior, ouvia muito! Eles foram pegando gosto, com pouco tavam cantando.”
“Qual o sonho de vocês?, perguntamos a Sandy e a Júnior. 
“É conhecer Sandy & Júnior”, responde Sandy pela dupla, se referindo aos astros da música que os inspira. 
Esperávamos que dissessem que sonham possuir casa própria, já que moram em casa alugada. 
Mas como questionar a resposta de duas crianças que levam uma vida tão difícil?

sexta-feira, 3 de abril de 2020

"Fique em casa que eu te dou um conto": Bem na hora


Da rua dava pra sentir o cheiro do gás. 
Cheguei bem na hora e desliguei.
Hoje estamos aqui comemorando os cem anos do vovô. 
Dezenas de pessoas estão ao lado dele, tirando fotos e postando nas redes sociais.
Ontem meu avô estava sozinho em casa.


Imagem de domínio público, disponível em www.pixabay.com/pt