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quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Maria (um conto de 2007)

- O senhor tem certeza que era ela?
- Era ela, tenho certeza.
- O senhor já conhecia ela?
- Eu já tinha visto ela pela BR...
- O senhor só tinha visto ou já transou com ela?
- Transar, assim, não foi bem uma transa não...
O motorista insistia que era Maria, possibilidade que o delegado se recusava aceitar.
Maria nasceu há 17 anos, num lugar chamado Pindura Saia, município de Pio XII, cujo nome é uma homenagem ao papa que, pelo que hoje sabemos, calou-se diante da perseguição aos judeus e protegeu nazistas, ao fim da 2a guerra mundial; não estranhemos essa homenagem: a maioria dos homenageados com nomes de cidades, ruas, obras, são pessoas pouco escrupulosas. O pai, Maria jamais conhecera. Um homem, a quem o vulgo batizou simplesmente de Zé Grande, engravidou a mãe de Maria e abandonou-a três meses depois para, segundo o dito cujo, ganhar muito dinheiro no garimpo. Não se sabe até hoje quanto ele ganhou, se é que ganhou, ou se perdeu o principal, a vida, que, por motivos óbvios, ainda é o bem mais importante que possuímos (para alguns, o único bem).
Mesmo esperançosa de um dia abrir a porta e encontrar à frente o sorriso dourado de Zé Grande, a mãe de Maria – que também se chamava Maria – juntou-se a um outro homem rude, cortador de juquira, pau pra toda obra, como se costuma dizer, de nome Manoel, mas só conhecido e reconhecido de todos pelo apelido de Pé de Cabra. Com ele, teve mais três filhos, dois meninos e uma menina.
Maria ajudava a mãe a cuidar dos meio-irmãos, a plantar, quebrar coco, fazer carvão e o que mais fosse preciso. Quando Maria tinha seus doze anos, o dito Pé de Cabra, seu padrasto, quando sozinho com ela passou constantemente a cercá-la de falsos carinhos e palavreado ainda mais hipócrita e, por último, a ameaçá-la de morte, caso a menina revelasse para a mãe o assédio que sofria.
Transtornos tais Maria viveu até os 16 anos, quando, ao ser violentada pelo padrasto, chamou a atenção da mãe e outras pessoas mais com gritos e lágrimas. Apesar do flagrante, a mãe acreditou ou fingiu acreditar na inocência de Pé de Cabra, que insinuou que a menina vivia seduzindo-o há algum tempo, com o feitiço do sexo que desabrochava.
A mãe assistiu, sem atitude, o padrasto expulsar Maria de casa, semi-nua e sem nem mesmo um chinelo no pé.
O resultado é que a menina virou prostituta de beira de estrada. E, enganada por alguns clientes que, ao final da transa jogavam para ela uma nota de 1 real (e olha que ela cobrava a mísera quantia de 5 reais), e também por ter aceito aquele valor em dias em que o estômago falava mais alto, Maria se transformou em motivo de chacota entre as colegas de difícil vida fácil, que passaram a chamá-la de rapariga de 1 real.
Poucos meses depois de cair nesse destino sombrio, Maria engravidou. E, no 7º mês de gravidez, foi levada às pressas para o hospital, sofrendo hemorragia.
O médico de plantão não estava e uma das enfermeiras que a atenderam mandou que parasse de gritar, pois, segundo a insensível criatura, “na hora de fazer, não pensou nisso”.
É triste ser lacônico ao descrever as circunstâncias em que vida e morte passam a ter um limite efêmero, mas, em resumo, Maria morreu.
Daí o delegado não acreditar na história contada pelo caminhoneiro, dizendo ser Maria a moça que aparecera na cabine do seu caminhão, perguntando:
- Cadê o meu dinheiro?
O homem declarou ter caído da cabine, com o susto, pois a porta do motorista estava aberta, e desmaiou, não sabendo exatamente por quanto tempo ficara desacordado. Ao acordar, descobriu que todo o seu dinheiro tinha sido levado.
Esse foi o primeiro caso. Contudo, outros relatos já apareceram, conforme as declarações de motoristas vários que percorrem a BR 316 no trecho entre as cidades de Pio XII e Santa Inês.

Todos insistem que a mulher que os atemoriza, chegando repentinamente como que do nada, e leva o dinheiro que trazem consigo,

é Maria...
Pio XII, Maranhão, 07/05/2007.

sábado, 27 de janeiro de 2018

Viva João Remexe Bucho!

Viva João Remexe Bucho!

Tenho saudades dos doidos da minha infância.
Doca Doido, João Remexe Bucho, até mesmo Amaral – sinto saudades...
Doca Doido era uma das minhas diversões, quando ia na missa na igreja de São Miguel. Diversão minha e de outras crianças. A voz do padre Onofre parecia um eco longínquo, incompreensível, quando Doca estava na igreja e nos hipnotizava com seus badoques: pequenos arcos-e-flechas que ele fazia e carregava, sem nenhuma gabolice por seus dons artísticos.
Mas, se tinha Doca, de quem a gente se aproximava sem medo, tinha também a doida Amaral, que assombrava mulheres e crianças com uma violência imprevisível e costumava tirar a roupa no meio da rua.
Contudo, a grande unanimidade era João Remexe Bucho. João era um doido pacífico, que carregava seus papelões pela cidade, ganhava um prato de comida e ali ficava com seus solilóquios e seus projetos aeronáuticos.
Não sou desses que vivem idealizando o passado, mas na minha infância parecia ser mais fácil distinguir a loucura da lucidez. Para as crianças, essa distinção era muito importante, pois nos indicava que algumas pessoas podiam mudar repentinamente de humor (como Amaral) e que havia comportamentos aceitáveis e comportamentos não aceitáveis, que iam definindo nossos futuros papeis adultos.
Hoje, não.
Hoje, instituições políticas e grande imprensa querem que aceitemos como “normais” comportamentos bem estranhos, como o de deputados envolvidos em corrupção fazendo orações na Câmara federal, médicos que, por não concordarem com as posições políticas de um paciente, recusam atendê-lo ou expressam o desejo de que o paciente morra, um Ministro da Educação que recebe sugestões de um ator pornô, um juiz que se apresenta como símbolo da luta contra a corrupção posando sorridente ao lado de um senador corrupto...
No entanto, a grande imprensa não questiona nem a sanidade mental nem a moral desses indivíduos ilustres. Loucos ou cínicos? Os grandes jornais nada dizem sobre isso. Seremos nós, humildes cidadãos, que já não possuímos a lucidez necessária para distinguir entre o certo e o errado?
É... Tudo muito esquisito.
Quando João Remexe Bucho faleceu, um grande público foi lhe prestar homenagem.
Homenagem que nenhum desses cínicos – que zombam da nossa lucidez – merece receber.
Portanto, viva João Remexe Bucho!  

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

"A mente, esta ninguém pode escravizar"


“A mente, esta ninguém pode escravizar” (Maria Firmina dos Reis).
Nesse 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, gostaria de ressaltar a importância da escritora maranhense Maria Firmina dos Reis e do seu romance “Úrsula”.
Dez anos antes de Castro Alves escrever “O navio negreiro”, Maria Firmina já denunciava o horror da escravidão em seu livro “Úrsula”, de 1859, como nesse trecho em que a personagem Suzana descreve quando é aprisionada, jogada no “infecto porão de um navio” e trazida para o Brasil como escrava:

Vou contar-te o meu cativeiro.
Tinha chegado o tempo da colheita, e o milho e o inhame e o amendoim eram em abundância nas nossas roças. […]
Ainda não tinha vencido cem braças do caminho, quando um assobio, que repercutiu nas matas, me veio orientar acerca do perigo eminente que aí me aguardava. E logo dois homens apareceram, e
amarraram-me com cordas. Era uma prisioneira — era uma escrava! Foi embalde que supliquei em nome de minha filha, que me restituíssem a liberdade: os bárbaros sorriam-se das minhas lágrimas, e olhavam-me sem compaixão. Julguei enlouquecer, julguei morrer, mas não me foi possível... A sorte me reservava ainda longos combates. Quando me arrancaram daqueles lugares, onde tudo me ficava — pátria, esposo, mãe e filha, e liberdade! Meu Deus, o que se passou no fundo da minha alma, só vós o pudestes avaliar!
Meteram-me a mim e a mais trezentos companheiros de infortúnio e de cativeiro no estreito e infecto porão de um navio. Trinta dias de cruéis tormentos, e de falta absoluta de tudo quanto é mais necessário à vida passamos nessa sepultura, até que abordamos às praias brasileiras. Para caber a mercadoria humana no porão fomos amarrados em pé, e, para que não houvesse receio de revolta, acorrentados como os animais ferozes das nossas matas, que se levam para recreio dos potentados da Europa: davam-nos a água imunda, podre e dada com mesquinhez, a comida má e ainda mais porca; vimos morrer ao nosso lado muitos companheiros à falta de ar, de alimento e de água. É horrível lembrar que criaturas humanas tratem a seus semelhantes assim, e que não lhes doa a consciência de levá-los à sepultura asfixiados e famintos!
Muitos não deixavam chegar esse ultimo extremo — davam-se a morte.
Nos dois últimos dias não houve mais alimento. Os mais insofridos entraram a vozear. Grande Deus! Da escotilha lançaram sobre nós água e breu fervendo, que escaldou-nos e veio dar a morte aos cabeças do motim.
A dor da perda da pátria, dos entes caros, da liberdade fora sufocada nessa viagem pelo horror constante de tamanhas atrocidades.

Não sei ainda como resisti — é que Deus quis poupar-me para provar a paciência de sua serva com novos tormentos que aqui me aguardavam. […]

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Rivânia


Tenho visto pessoas ensimesmadas, com ar de indiferença ou cara de poucos amigos.
Tenho visto pessoas narcisicamente olhando para suas telinhas, fingindo para si mesmas que estão a cumprir relevante dever cívico ou a estabelecer amizades autênticas.
Pateticamente encapsuladas em suas bolhas, a vizinhança física é casual: “acidentalmente” são membros da mesma comunidade.
Nesse estado de sonambulismo, como captar ínfimas partículas de cotidiana poesia e o lirismo, a irromper da rotina ou, quiçá, da mais asfixiante existência?
Se estamos cegos para as sutis surpresas da alma, esse gênero, a crônica, está com seus dias contados? Por vivermos num mundo consumista, imediatista, narcisista, entrou na lista das espécies (literárias) em extinção esse gênero que já proporcionou algumas das mais belas páginas da nossa língua?
Então, lá do interior do país, uma menina de apenas oito anos faz a inesperada magia de transformar pessimismo em esperança. Seu nome? Rivânia.
Ela e sua família foram atingidas pelo alagamento provocado por chuvas intensas, no interior de Pernambuco, na cidade de São José da Coroa Grande.
Quando tiveram que sair da casa alagada, a avó de Rivânia pediu à neta que salvasse o que fosse de mais importância para ela. Rivânia pegou os livros didáticos e os colocou numa mochila, antes de entrar no pequeno barco que resgataria ela e a avó.
A foto de Rivânia agarrada à sua mochila de livros viralizou na internet. E a pobre menina, vivente de um universo paralelo no qual os sonhos infantis não cabem nas telas dos smartphones, realizou, sem que o saiba, a magia de que falamos: o “efeito esperançavem de sua atitude para com os livros, estes sim, objetos essenciais, portadores de uma cultura sólida, universal, intuiu sabiamente, em sua muda convicção, a pequena Rivânia.
A imagem de Rivânia apegando-se à solidez dos seus livros, em contraste com a ameaça líquida à sua volta, nos liga ao passado e ao futuro e nos desliga do efêmero.
Graças a Rivânia voltamos, por um momento, a nos reconectar à vida concreta.
E a redescobrir o lirismo, que faz da crônica um gênero atemporal.


Pio XII, Maranhão, 04 de junho de 2017.

domingo, 20 de novembro de 2016

quinta-feira, 30 de julho de 2015

Homenagem a Zé Limeira


Hoje eu fui lá na feira
Comprar um quilo de felicidade
E me encontrei com Zé Limeira
Perambulando pela cidade
Com um tostão furado na carteira
E usando um cinto de castidade
Ficava tirando poesia da algibeira
E sorrindo de tudo que era modernidade
Lampião pensou que era brincadeira
E deu a Zé um bocó de inutilidades
Como um celular sem eira nem beira
Que só tirava retrato de gente sem falsidade
Maomé, debaixo duma palmeira,
Servindo o caldo da caridade,
Disse: "Zé, hômi, você não pode pegar poeira,
Nem tomar vento na puberdade"
Buda, Jesus e Padre Antônio Vieira
Também estavam lá distribuindo humildade
Quando num pé de pau subiu Zé Limeira
Pra não ver o povo passando necessidade
Zumbi dos Palmares falou: "essa não é a primeira
Vez que levo na cacunda um homem da terceira idade"
Nos ombros de Zumbi, Zé abriu tudo que era coleira
E saíram por aí semeando liberdade
Foi tanta gente solta pelas cumeeiras
Que tiraram o sono das autoridades
Eu creio cá comigo que essa foi a derradeira
Vez que permitiram ao poeta Zé Limeira
Perambular com sua poesia pela cidade...
Pio XII, 28/07/2015, 20:48.

Para Cícero Antônio Basílio Quesado, Hélio Guedelha e Severino Juvenal.