Neste vídeo, temos um exemplo simples da importância da linguagem, para a criança, na apropriação de conceitos científicos no dia a dia.
terça-feira, 29 de julho de 2025
segunda-feira, 7 de abril de 2025
Incelenças
Excelências.
Empresa de excelência.
Escola de excelência.
Excelência pessoal.
Excelências.
O conceito está por aí, persuadindo-nos que basta seguir alguns procedimentos e a excelência virá.
Virá?
A excelência contraria o óbvio: a imperfeição de que são constituídos os seres humanos, saudosos de um não-sei-o-quê que sempre nos acompanha.
Somos excelentes em nossas imperfeições.
Se não nos enquadramos no script da excelência, somos menos gente? Somos tão-somente um empecilho, carta fora do baralho? Mesmo que o roteiro nos reserve o papel de desentendido dos outros e algoz de si mesmo? Encaixe-se; ou será substituído.
Qual o preço dessa excelência? “Tome estas pílulas”, disse o médico da empresa ao meu taciturno amigo, num dos poucos dias em que este rapaz decidiu ser mais falante com os colegas de trabalho. “Você parecia alterado”, disse o médico ao meu amigo, que continua consumindo as milagrosas-pílulas-pró-excelência-empresarial.
O “excelente” professor de matemática da Escola Normal da minha infância ia aos sábados levar problemas para o meu pai resolver… Meu pai, que andava longe da excelência paterna, andava misteriosamente próximo duma suposta excelência matemática, mesmo tendo vivido na roça e mal concluído o primário… Não sabemos, talvez nunca saibamos, como é moldada a matéria de que nos constituímos...
Sei que somos insubstituíveis, pois mesmo que reponham a peça que você é, a nova peça será feita de outro material: a coisificação de outras experiências. Logo, você não estará sendo substituído. Cada ser humano é uma peça única: daí sermos insubstituíveis.
No Nordeste, excelência virou incelença. Mui interessante. Mudaram-se os prefixos: o ex (para fora) se transformou no in (para dentro). A incelença não é algo para “se amostrar”, mas para se viver, para se consolidar.
Ou para se rememorar, como algo que nos constituiu, como as incelenças, cantigas de sentinelas, benditos de defuntos…
… Tão gostosamente de se ouvir também — incelença — para o trato das autoridades que estão léguas e léguas distantes da excelência como pessoas boas…
Daí eu cantar incelenças: não só para o que se perdeu, mas para a vida, e para o que em nós buscamos: não a perfeição, mas o mistério.
domingo, 23 de fevereiro de 2025
Tesouro
O meu pai nunca se cansou da roça. Sempre trabalhou sem reclamar. Às vezes, mesmo com o sol pouco amigo, lá ia ele. E minha mãe, com as mãos nos quartos:
– Tu já vai de novo, homi?
Ele era, então, um típico homem da roça.
Mas teve um tempo em que ele voltava da roça aflito, célere, olhos irritados – e caía na rede e dizia que a cabeça doía. Então, o médico o proibiu de ir pra roça e, principalmente, pegar sol.
Mas papai nunca foi de passar uma tarde na rede, balançando-se com cantigas ao vento. Não; sempre foi um homem de atitude. Quando, lá mesmo no nosso povoado, abriram uma sala para alfabetização de adultos, papai foi o primeiro a se matricular. Chegou em casa todo feliz, contando a novidade.
– Vou ser estudante também, igual vocês – e apontou pra nós, eu, meu irmão caçula e minha irmã, um ano mais velha que eu.
Nós aplaudimos a decisão, mas mamãe foi contra:
– E tu tem lá cabeça pra aprender alguma coisa ainda?
– Vá estudar também, dona – disse minha irmã.
– E eu tenho cabeça?! – respondeu mamãe, atarantada e em fuga para o terreiro.
Mas papai foi estudar – e estudou – e aprendeu a ler.
Aí, teve aquele dia. Íamos pegar o carro na praça central de Pio XII, de volta para o povoado, quando papai viu o livro. Era um livro de Rubem Braga, cheio de contos, esquecido num banco da praça. Havia muitas pessoas esperando transporte para a zona rural da cidade, mas só meu pai viu o livro, como se sua recém adquirida habilidade de ler também tivesse lhe dado poderes magnéticos em relação aos objetos de leitura.
– Oxi… Esqueceram um livro aqui…
Papai saiu perguntando entre as pessoas que estavam ali pela praça se o livro era de alguma delas. Não, não era.
– Guarde com o senhor, seu Chico! – disse seu Nonato, o motorista da camionete.
Papai guardou, mas, cheio de escrúpulos como ele é, na segunda-feira foi à biblioteca municipal, ali na praça, pertinho de onde os moradores pegavam os carros com destino aos seus povoados, pois, segundo papai, alguém deveria ter pego emprestado na biblioteca e esquecido no banco da praça.
– Não, não é daqui – disse a bibliotecária, enquanto pesquisava no computador se o livro constava no acervo e se estava entre os emprestados.
Por fim, papai ficou com o livro. E o leu, por vários e vários dias. Chegávamos da escola e o encontrávamos embaixo do pé de manga, livro nas mãos, muita paciência e olhos que sorriam o mistério de uma beleza que não conseguíamos ver, mas sabíamos que estava lá.
Quando percebemos o interesse de papai pela leitura, pensamos um dia levar para ele livros que tínhamos acesso na biblioteca da escola em que estudávamos.
– Papai tem muita vontade de saber como era a avó dele – disse minha irmã. – Por isso, vou levar esse livro aqui.
E mostrou-me um bonito livro em capa dura intitulado “Mãe África”.
Papai gostou da novidade. Lia-o com avidez, inclusive à luz de velas, quando faltava energia no povoado – e olha que faltava com frequência. Ao terminar, nos perguntou:
– De onde saiu esse, tem mais?
Tinha. Na bibloteca da escola tinha uma parte da estante denominada “Literatura Negra”. Eu e minha irmã voltamos lá, escolhemos um livro cada um de nós e levamos emprestado. E foi assim que chegamos em casa com “Quarto de despejo”, de Carolina Maria de Jesus – e sobre quem havíamos assistido um documentário, na aula de português – e “Ponciá Vicêncio”, de Conceição Evaristo. Papai leu-os quase ao mesmo tempo. Depois da leitura, andava cabisbaixo, resmungando sozinho. Um dia mamãe perguntou o que ele tinha:
– A bichinha da Ponciá… – foi sua única e lacrimosa resposta.
– Essas leitura não tão fazendo bem pro seu pai – mamãe veio reclamar pra gente.
– Tão, sim! – respondeu minha irmã. – Até com um ar de inteligência papai tá agora, a senhora num tem reparado não?
– Pra mim ele num mudou nada – discordou mamãe, mas seus olhos em direção a papai pareciam dizer o contrário.
E mais cismada ela ficou quando papai anunciou que tinha uma viagem a fazer.
– Pra onde, homi?
– Vou bem ali, no Centro da Adelina, ver tia Aldina.
O Centro da Adelina fica a cerca de duzentos quilômetros do município de Pio XII. Mamãe não gostou da ideia.
– Fazer o quê? Sabe nem se tua tia é viva ainda…
– É claro que é! Como é que ela morreu e ninguém ficou sabendo?
Ajudamos a estabelecer alguns contatos, descobrimos que sua tia Aldina era viva, sim, e papai viajou.
Era para ser uma viagem de três dias, mas durou dez.
Minha irmã e meu irmão jogavam bola no terreiro em frente de casa, eu ajudava mamãe a levar para dentro as coisas que estavam no jirau, quando seu Nonato da camionete parou e papai desceu do carro, tão feliz que parecia mais moço. Foi abraçando a gente e contando logo as novidades.
Estava muito feliz por ter reencontrado sua tia Aldina que, apesar dos seus oitenta e oito anos, continuava lúcida e faladeira.
– Olhem isso aqui – e ele tirou da mochila uma pasta dessas de escola, de plástico transparente. Dentro dela, apenas um desenho. Uma mulher negra idosa, de olhar altivo e cocó.
– Quem é essa aí? – perguntou mamãe.
– Minha vó – respondeu papai, sem esconder o orgulho.
– Tua vó?
– Sim, minha vó, dona Joana Aldina da Conceição.
Mamãe olhava e olhava para o desenho, com um estranho encantamento.
Depois, papai plastificou o desenho que, contou-nos ele, havia sido feito por um filho de um primo seu, este, por sua vez, filho de sua tia Aldina. O desenhista fez o retrato a partir das lembranças e das vívidas descrições da tia Aldina.
O desenho foi colocado numa moldura e pregado na parede. E quando chegava gente lá em casa, não era papai quem fazia propaganda da nossa bisavó, era mamãe quem, sem disfarçar o orgulho, fazia questão de apontar para o quadro – como que para um tesouro que estivera oculto por anos e anos – e perguntar às visitas:
– Já viu o retrato da vó de Chico?
Pio XII, Maranhão, 23/02/2025, 16:42 hs. Para meus queridos alunos e alunas do Centro Educa Mais Jansen Veloso.
terça-feira, 24 de dezembro de 2024
natal
então, é natal
: socorra
a sede e a fome
dos necessitados
"parem as guerras", re-clame
pois o verbo não é pó
nem é só
princípio
é fluir
entre as gentes tempos e lugares
deixe a escuta vagar entre
todos os mares
e captar os quasares
do desamparo cósmico
aquela criança desamparada nos escombros de Gaza
também é você
São Luís, 24/12/2024.
terça-feira, 15 de outubro de 2024
Imprescindíveis
num mundo tão de-
cadente
professores são im-
prescindíveis
pra lançar uns a-
bracadabras
e tentar despertar so-
nâmbulos
e dizer tão altiva-
mente
tire os seus li-
kes do caminho
que já não vou pas-
sar com meu burnout
(umas pobres cri-
ancinhas
saíram da disney-
lândia
direto pra zumbi-
lândia
mas muitas ou-
tras dormiram
ao relento des-
-ses sonhos
de ser alguém al-
gum dia)
e cá estão pro-
fessores
repudiando men-
tiras
e com a difí-
cil lida
de reexpli-
car o óbvio
(e combater a fa-
diga
e ainda al-
çar sua voz amiga)
nesses tão va-
zios dias
nesse fastio de i-
deias
nesse não-
sentir
nesse não-sa-
ber
nesse não ca-
ber no mundo
de tantos me-
dos e espantos
famílias inteiras mu-
tiladas
pedem socorro aos pro-
fessores
mestres e mestras he-
hoicos
(e de natural in-
teligência)
que resistem bra-
vamente
à promoção da ig-
norância
mas pode o capita-
lismo
valorizar mestres e mes-
tras
quando o que o sis-
tema quer
é implantar a aliena-
cão
nos vazios dos estu-
dantes?
a resposta, portan-
to, é lutar
afinal, mestre Ro-
sa ensinou-nos
a navegar nos a-
bismos
com barqui-
nhos de papel
quinta-feira, 5 de setembro de 2024
Palestina Livre
Sonho?
Absurdo?
Irreal?
Paradoxal
Contrário a toda humanidade
Pesadelo real
Que o ímpio assassino
Estado de Israel
Lança sobre a Faixa de Gaza
Transformando em ruínas
Sonhos
Culturas
Vidas
E nossas almas perplexas
Diabólico Morpheu que desentranha o terror nazista
E traz
O apartheid
O genocídio
Para o povo palestino
Sob a frieza cúmplice da ONU e das nações a que ingenuamente chamamos de democráticas, civilizadas
Grandes potências ocidentais
E seus capitalistas
Insensíveis ao sangue que escorre
Aos milhares que morrem
Às ruínas na geografia de
Cidades
Corpos
Almas
Para eles, a destruição, a guerra
Tanto faz
Desde que seus negócios
Estejam em paz
Diante da limpeza étnica
Do horror do nazismo restabelecido
Com a complacência dos principais líderes políticos e da imprensa autodenominada demagogicamente de "livre"
Como dizer às crianças de todo o mundo
Pra escovar os dentes, pentear os cabelos, tomar café e ir pra escola?
Não podemos
Ser reféns
Do desdém
À vida
Amém
Aos que lutam
E acreditam
Palestina
Livre
domingo, 12 de maio de 2024
Uma obra fundamental: “Pio XII: conhecendo o meu município”
No mês passado foi lançado, em Pio XII, o livro “Pio XII: conhecendo o meu município”. A obra didática foi escrita por Fabiana Chaves Oliveira, Gilcênio Vieira Souza, Iracélia Naiva de Oliveira, Maria Lúcia Ribeiro da Silva, Miriam Lopes de Oliveira Andrade e Teresa Cristina Freitas Oliveira.
O livro, que aborda a história e a geografia de Pio XII, apresenta informações imprescindíveis sobre o município, as quais não era possível encontrar, até então, reunidas e sistematizadas numa única fonte.
Na unidade sobre o espaço geográfico temos, por exemplo, uma descrição precisa de Pio XII dentro do território brasileiro, dados atualizados do IBGE e uma apresentação dos povoados locais e suas distâncias em relação à sede do município.
Na parte histórica, temos uma minuciosa reconstituição, que nos possibilita compreender o contexto sociopolítico que está na origem de Pio XII e como o município evoluiu até os presentes dias.
O capítulo sobre o meio ambiente propicia entender as relações entre o local e o universal, situando Pio XII como bioma e localidade que, como tais, sujeitam-se às interferências gerais que impactam o espaço, levando-nos a concluir pela importância da relação entre educação ambiental e qualidade de vida.
A unidade que trata da cultura mostra-nos as tradições populares locais, o lazer, os festejos e a criação artística, revelando-nos que também em suas expressões literárias Pio XII traz a marca migrante da oralidade da poesia nordestina e do cordel.
A unidade sobre os poderes, direitos e deveres apresenta aos leitores o sentido da noção democrática de cidadania e sua importância para o bom desenvolvimento das relações políticas contemporâneas.
O livro foi elaborado com bastante rigor metodológico e conceitual. Como um dos autores da obra, garanto-lhes, com orgulho, que adotamos a linha da objetividade científica na pesquisa e na escrita, o que resultou numa obra fundamental para entendermos nossa realidade local e regional.
P. S.: Uma errata foi acrescentada ao livro, em função da ausência ou equívoco de palavras, mas nada que comprometa a integridade ética ou científica da obra.




