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sábado, 19 de setembro de 2026

Precisamos (ainda) conversar sobre o complexo de vira-latas

 


Para quem ainda não sabe, sou vascaíno. Embora já um tanto anestesiado para eventuais fracassos e sofrências, mas... meu coração é irremediavelmente vascaíno. No entanto, quarta-feira passada, eu era o mais corinthiano de todos os torcedores.  

Enfrentando o Estudiantes de La Plata, o Corinthians lutava para se classificar para as semifinais da Libertadores. Um a um, o primeiro jogo, lá na Argentina. Na casa do Corinthians, o empate levaria para os pênaltis. Mas, aos 41 do segundo tempo, num belo voleio, o volante Alexis Castro marca o gol do Estudiantes. 

Então, no minuto final dos acréscimos, acontece o lance que enche de esperança os mais de 40 mil corinthianos presentes em Itaquera e milhões de outros torcedores Brasil e mundo a fora: um pênalti para o Corinthians. O holandês Memphis Depay segurou a bola e não a liberou para mais ninguém. A torcida segura o grito. Memphis vai para a bola e... isola! A pelota vai parar nas arquibancadas atrás do gol... Decepção e tristeza. 

Decepção, sentimento que também me atinge, pois estava torcendo para, pela primeira vez, uma semifinal da Libertadores só com times brasileiros. Esse triste acontecimento, junto ao fato de estar, nesse ínterim, abordando junto aos meus alunos a importância do teatro de Nelson Rodrigues, me fez repensar sobre esse estranho complexo de vira-latas” que atravessa a psique de muitos brasileiros. 

O termo “complexo de vira-latas” foi criado pelo escritor Nelson Rodrigues em 1958. Estávamos à véspera da Copa de 58 e Nelson Rodrigues ressaltava o pessimismo do brasileiro que sequer acreditava que a seleção se classificaria. Segundo Nelson, “complexo de vira-latas” é a situação de “inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. Isto em todos os setores e, sobretudo, no futebol”. Trata-se, portanto, de “um problema de fé em si mesmo. O brasileiro precisa se convencer de que não é um vira-latas”. Hoje mais do que nunca. 

Pois bem. Temos o melhor futebol do mundo. Isso é evidente no invejável fato de que a seleção brasileira de futebol é a única a ser pentacampeã mundial. Evidente também no grande número de jogadores brasileiros espalhando seus talentos pelos gramados do mundo. Essas duas evidências bastariam como antídoto para o malfadado complexo. Sem falar que muitos desses craques que chegam à seleção ou vão encantar outras torcidas planeta-a-fora são revelados no maior e mais difícil torneio de futebol do mundo, o nosso campeonato brasileiro, que traz times desiguais, em termos econômicos e organizativos, jogando em um país de dimensões continentais – e mesmo assim teima em revelar mais e mais craques a cada temporada. 

Logo, não temos motivos para nos sentirmos inferiores, mesmo não conquistando uma copa desde 2002. Mas, não custa lembrar que já poderíamos até ser hexacampeões: em 1978, a seleção brasileira foi eliminada da copa sem ter perdido nenhum jogo. O técnico do Brasil à época, Cláudio Coutinho, cunhou uma frase emblemática: “Fomos os campeões morais dessa Copa”. A frase foi dita depois das descaradas armações da Fifa que favoreceram a Argentina naquela copa, levando-a a ganhar seu primeiro título mundial.  

(Pequeno parêntese de memórias recentes: a bajulação da Fifa em prol da Argentina e dos Estados Unidos na copa desse ano...) 

Mesmo com o Corinthians eliminado, temos três brasileiros nas semifinais da Libertadores: Flamengo, Fluminense e Palmeiras. E apenas um argentino, o Estudiantes. Na Sulamericana, também predomina o Brasil: o Vasco vai enfrentar o Boca Juniors, da Argentina e o Atlético mineiro pega o Cienciano, do Uruguai. Ou seja, nas semifinais de nossos torneios regionais, temos cinco times brasileiros, apenas dois argentinos e um uruguaio. 

Mas, infelizmente, o complexo de vira-latas manifesta-se para além do futebol. Há os que criticam o cinema brasileiro, nossa música ou nossa literatura. Por ora não citarei algumas de nossa obras-primas cinematográficas, mas prefiro ressaltar a falta de investimentos que tanto marcou a história da sétima arte no Brasil. Falta de investimentos no nacional que – olha só – é um dos lados do complexo de vira-latas, quando associado ao poder: sim, projetos políticos e governantes que escolhem não desenvolver as artes nacionais, a fim de que continuemos, abestalhados, a sorrir e aplaudir o cinema norte-americano.  

Sobre a riqueza rítmica, sonora e poética da música brasileira – direi apenas isso. 

Quanto à literatura, o brasileiro com complexo de vira-latas costuma lembrar que nunca ganhamos um prêmio Nobel. Ainda bem, digo eu, pois o quanto podemos confiar na Academia Sueca, premiadora do Nobel? Em 2016, o Nobel de literatura foi para o cantor e compositor Bob Dylan, o qual silenciou sobre e só foi receber o prêmio meses depois. Tão bom na canção quanto Bob Dylan é o nosso Chico Buarque. Detalhe: Chico é escritor; um grande escritor de romances, peças teatrais e contos. A verdade é que não podemos confiar na Academia Sueca, que já concedeu, por exemplo, prêmios Nobel da paz a Henry Kissinger, Secretário de Segurança dos Estados Unidos, que colaborou com um dos golpes e um dos governos mais cruéis do mundo: a ditadura de Pinochet, no Chile; ou Barack Obama, ex-presidente norte-americano, que ganhou o Nobel da paz enquanto comandava campanhas de guerra no Iraque e no Afeganistão. No ano passado, o Nobel da paz saiu para a venezuelana Maria Corina Machado, a qualpresenteou Donald Trump com o prêmio (sim, existe complexo de vira-latas em outros lugares também). Anteontem, a ONU apresentou um relatório acusando o governo Trump de crimes de guerra, pelo assassinato de 120 meninas da escola Shajareh Tayyehbe, em Minab, no Irã... 

Não termos ganhado o Nobel de literatura não nos causa inferioridade. E, aqui, eu poderia fazer uma lista enorme de escritoras e escritores brasileiros que fariam jus ao prêmio, mas me resumo a lembrar a prosa meticulosa de Graciliano Ramos e as questões universais que seus romances e contos levanta, bem como poderia destacar outros autores da geração de 30. Ou falar de um dos nossos maiores gênios, experimentador-inventor de palavras e enredos que fundem gente e espaços, revelador do sertão interior de cada um, o nosso Guimarães Rosa. E enquanto alguns complexados estão aí alienados de nossa riqueza literária, escritores como Machado de Assis e Clarice Lispector são, nesse momento, avidamente lidos pelo mundo-a-fora. 

Como Nelson Rodrigues, devemos, antes de tudo, acreditar no brasileiro. Começando pelo futebol, pois como bem disse o criador de Vestido de noiva, “qualquer jogador brasileiro, quando se desamarra de suas inibições e se põe em estado de graça, é algo de único em matéria de fantasia, de improvisação, de invenção”.  

Mas não basta acreditar no brasileiro; é preciso também combater esse vira-latismo servil, que se revela ridiculamente em atos como bater continência para a bandeira dos Estados Unidos ou torcer para que nosso país seja invadido pelos norte-americanos. E, se antes, a lavagem cerebral e a liquidação da nossa autoestima aconteciam principalmente através dos filmes da Globo, com enredos inverossímeis e heróis fodões mais inverossímeis ainda – que não tinham nada a ver com nossa realidade – desde a Sessão da Tarde até a hora de irmos dormir, hoje, a situação é mais preocupante. Ontem, por exemplo, a CNN internacional revelou que Trump está preparando o envio de drones militares para a América do Sul. Esses drones são especializados em espionagem e ataque. Lembrando que o Brasil está cercado de governantes com seus próprios complexos de vira-lata, os quais têm se caracterizado pela bajulação a tudo que vem dos Estados Unidos, como é o caso dos governos de Argentina e Colômbia. 

Bem que eu gostaria de dizer: – Nonada... Mas o problema realmente preocupa. A questão do nosso desenvolvimento nacional pressupõe a superação desse complexo de vira-latas. “Temos dons em excesso”, já afirmava Nelson Rodrigues naquela crônica. Devemos realmente valorizar esses dons; valorizar nossos talentos, seja no gramado, nas letras, na sétima arte, na cultura em geral, nos esportes ou nas ciências. Valorizar o que é nosso é um ato político; bem como só através de políticas de valorização do nacional, vamos poder desenvolver também o amor-próprio e a fé em nossa capacidade de superar os problemas do país.  

 

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